“Ele vai quebrar as amarras”, diz Dan Stulbach sobre nova fase do Eugênio em A Força do Querer

Dan Stulbach
Dan Stulbach (Divulgação/ TV Globo)

Ele divide a opinião do público com seu personagem Eugênio, da novela A Força do Querer. Uns acreditam que ele seja apenas muito educado, outros já dizem que falta pulso firme e maturidade ao marido de Joyce. O ator Dan Stulbach bateu um papo com o Observatório da Televisão, e contou sobre as facetas de seu personagem na trama de Gloria Perez, sua relação com o universo da dramaturgia, suas manias e aspirações futuras:

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Queria que você falasse um pouco desse turbilhão de sentimentos que envolve o Eugênio?


Eu acho que o Eugênio tem um olho voltado para si, ele quer melhorar o tempo inteiro, diferente da Joyce (Maria Fernanda Cândido) que não tem isso. Ela olha para a filha e tenta fazer que ela seja uma projeção dela mesma melhorada, uma mini Joyce, mas aquilo não tem a ver com a personalidade da filha. Geralmente quando os pais projetam algo nos filhos e os filhos têm outras buscas, eles acabam sendo infelizes. A mãe, a mulher em geral são mais preparadas para a mudança no sentido da emoção, e nós homens, somos mais agarrados às coisas que a gente aprendeu e acredita, e na maioria dos casos os problemas em casa são com os pais, e a benevolência e aceitação vem antes por parte da mãe. Nas minhas entrevistas que fiz com trans, 100% foi assim, outras questões como a falta de diálogo também, já na novela acontece o inverso, o que acho legal, tanto para não cairmos no clichê, quanto para mim como ator, por viver um personagem que escuta, compreende e se transforma ao longo da novela.

É a cena que ele aceitou o Ivan?

A cena de ontem quando gravamos foi muito diferente, porque ensaiamos muito calmamente e na hora eu explodi. Quando acabou, diferente de muitas outras cenas, eu não sabia como eu tinha ido, e só fiquei sabendo quando foi ao ar porque recebi muitas mensagens carinhosas e elogios. Eu quis fazer assim, porque no estágio de mudança de aprendizado do Eugênio, ele já está explodindo e colocando as emoções para fora, coisa que ele não conseguia antes, por ser todo contido.

Essa situação da Ivana transformou ele?

Talvez essa situação do filho vai fazê-lo se transformar numa pessoa mais aberta, e se encontrar, porque muitas vezes ele parecia perdido, no casamento, amigos, profissionalmente.

No início da trama, Eugênio era muito mais fechado. Não é isso?

Ele tem dificuldade de dividir as coisas, como nós temos também. Ele é um cara que a partir daí passa a dividir mais com os outros, sobretudo na questão da Irene, que ele chama os filhos para ajudar. Existe uma grande habilidade da Gloria em desenhar essa mudança.

Você falou da dicotomia do homem pragmático e da mulher sentimental. Qual é a parte interessante de fazer com que o homem aceite o filho transgênero mais rápido que a mulher?

Sempre lembrando que a novela é entretenimento e não tem função didática, apesar dessa novela cumprir sua função social com muita elegância, então, nem tudo o que tem escrito numa cena é feito com o intuito de provocar mudança de prerrogativa, é essa a primeira das coisas que acho interessantes. Acho que a novela mostra mulheres fortes de diversas maneiras, socialmente e dramaturgicamente, e isso é muito bom, e a Joyce está nesse leque de mulheres, e de alguma maneira o Eugênio acaba complementando esse casal, e mostra a grosso modo que o homem pode e deve se emocionar, ouvir, e a mãe pode e deve ser forte também e tem seus erros quando não ouve. Não é privilégio do homem ou da mulher a qualidade de ouvir. Estamos tratando de diálogo, das coisas mais banais às mais complexas. Na minha vida tenho recebido mensagens de homens que dizem: “Estou assistindo à novela com minha família, com minha filha, e ela me perguntou isso”. A cena dos pai e do filho no escritório, foi a que mais recebi mensagens, para mim foi o recorde. Na cena após a Ivana cortar o cabelo, que o Eugênio encontra com a Joyce, trabalhei ali a incapacidade dele de expressar em palavras o que estava sentindo. O Eugênio procura a palavra certa sempre, a Joyce acha que já tem a palavra certa. Ali recebi muitas mensagens de pais dizendo por exemplo: “Lembrei de mim quando minha filha me disse que tinha transado com seu primeiro namorado e eu não sabia o que fazer”. Isso é gratificante para o ator. Essa troca. Sabe?

A situação da Ivana é só mais um detalhe nos problemas daquela família, não é mesmo?

As coisas não ditas na família e nas nossas vidas não morrem, elas voltam. Existe um preço alto nas coisas não conversadas, porque elas ficam como mágoa, frustração, como tristeza, suspeita.

Essa gravidez da Irene vai fazer com que esse casal se dissolva novamente?

Isso é uma loucura. Gravamos essa cena na segunda-feira, e foi muito legal. Eu adoro trabalhar com a Débora Falabella, é uma baita atriz. O casal entra numa doideira, porque já tem a questão da Ivana (Carol Duarte), e depois quando acontece isso, dá uma baratinada neles. Vamos gravar daqui a pouco a cena em que a Joyce fica sabendo que a Irene está grávida.

A personagem da Claudia Mello é como uma mediadora da família. Em algum momento o Eugênio vai recorrer a ela?

A Zu é a testemunha silenciosa, que ama a todos e todos a amam. A Claudinha faz com muita elegância, e adoro o trabalho dela. Eles têm uma parceria, uma relação carinhosa.

Em relação a Irene, muita gente fala que o Eugênio é bobo, inclusive saiu uma matéria que falava que ele parecia um boneco de corda nas mãos da Joyce. Você acha que ele é um banana?

Não, mas todo ator tem a tendência de defender seu personagem. É importante ver que ele não vê e não sabe de boa parte do que as pessoas vêem em casa. Ele tem uma mulher que poda ele, e não estimula ele no trabalho, encontra uma outra que acha tudo o que ele faz maravilhoso, os dois tem um encontro amoroso e sexual incrível, depois ele vai percebendo outras coisas. É difícil julgar com o nosso olhar. Existe nele uma coisa que não gosto muito, porque ele é essencialmente bom, e o homem essencialmente bom no Brasil é quase sinônimo de idiota, e isso me incomoda porque eu não quero viver num país de espertos. De alguma maneira somos cobrados para ter uma certa malandragem para não sermos tidos como idiotas. Acho isso injusto com a bondade. A pessoa muito boa no Brasil é próxima de burra, e isso me incomoda.

Vemos nas suas redes sociais que você tem algo de showman, produz, faz vídeos de entrevistas, como as entrevistas como pessoas trans. Seu lado comunicador é muito aguçado?

Eu queria usar as minhas redes sociais para fugir daquela coisa da vaidade e ego de ficar tirando foto de mim mesmo no espelho. Sei que as pessoas querem ver isso, e isso gera curtidas, mas preferia usar para algo útil. Daí vieram as entrevistas, para poder compartilhar com as pessoas aquele assunto, e como forma de usar as minhas redes sociais para o que eu acho útil.

O papo com a Carol Duarte, bateu todos os recordes, né?

Foi uma curtição. A ideia de fazer o vídeo foi dela. Ficamos conversando e tinha falado para ela desde o início o que ia acontecer. Depois que gravamos a cena, deu um silêncio e fomos ficando tão emocionados com tudo, pela caminhada dela. Lembro como foi a minha caminhada, das pessoas conhecerem meu trabalho como o Marcos de Mulheres Apaixonadas, a Maria Fernanda falou sobre a Paola que ela fazia com o Raul Cortez. Quando chamei a Carol, se naquele dia tinham recorde de mensagens para mim, para ela então estava uma loucura.

Quando você fala sobre mensagens recebidas, você as recebe por onde?

Todos os lugares. Facebook, Whatsapp. A rede social tem uma lógica maravilhosa nesse aspecto de poder trocar opinião com as pessoas e saber o que elas estão achando.

O Eugênio vai finalmente descobrir que a Irene é uma psicopata. Como foi para você construir isso?

Eu me dedico muito ao trabalho, pensando em cada detalhe. Eu desenhei a personalidade dele pensando: “O Eugênio vai começar a quebrar as amarras aqui”; e a cena significativa era essa que foi ao ar ontem, e ele vai ver a Irene com muito mais raiva. É Eugênio 2.0 agora, e gosto de desenhar uma pessoa que a gente acredita que elas possam existir de verdade. Com a Irene ele vai ser menos educado, menos bobo, ainda que ele seja na medida respeitoso. Tento sempre fazer essa mudança no personagem.

Na sua vida pessoal, já passaram muitas pessoas com as características de psicopatia da Irene?

Não cara. Inclusive acho que essa é a coisa mais legal da nossa profissão, e ainda bem nunca conheci muitos psicopatas.

Como é sair desse Eugênio mais calmo, para o Eugênio furioso?

Eu sentia o Eugênio reprimido, e até é um tipo de interpretação que acredito, mais contida, mas agora ele vai se permitir mais, por não conseguir mais segurar tudo. Inclusive aquela cena dele com o Ivan no escritório, eu tinha feito ele contido, e depois pensei: “não, quero fazer diferente”. Aí quando eu fiz de novo, que chorei, gritei, a galera se assustou. Eu tenho tesão em fazer novela, viver uma outra vida, e ver vocês me dando uma importância que não tenho (risos).

Como você acha que a história dessa família vai terminar?

Não tenho ideia. Eu tenho algumas manias, não sento de costas para a porta, não ligo para os autores, não peço nada para os autores, e não torço para nenhum final específico. Desde sempre sou assim. Meu trabalho não é querer nada, e sim, fazer o que a Gloria quiser que eu faça.

Mesmo que você esteja insatisfeito com o personagem?

Eu nunca estive insatisfeito com nenhum personagem. Já tive insatisfeito com o trabalho pra não dizer que tudo são flores, uma série que fiz uma vez que odiei fazer, mas porque isso acontece na TV, no cinema, na vida, mas com o personagem não. Qualquer tipo de personagem eu tenho o maior tesão em fazer. Outra mania minha é não ler os capítulos antes, se eu vou gravar até o 160, só leio até o 160. Não leio nada depois da cena que vou fazer. Eu busco isso nessa novela mais do que em qualquer outra novela que fiz na vida. O Eugênio é de parar e ouvir, e várias cenas dele são cheias de silêncio. Com isso a gente passa uma verdade para quem está assistindo em casa e o que eu puder fazer como ator para que isso dê certo, eu farei.

Você tem alguma mania dessas na vida?

Tenho, de fazer listas.

Você tem vontade de ter um programa de entrevistas?

Todo mundo me pergunta isso, me cobra isso, tanto imprensa, como amigos. De tanto me perguntaram, comecei a pensar sobre. Mas não tenho nenhum projeto, já tenho meu trabalho no rádio, e também esses vídeos nas redes sociais.

Você é intuitivo. Sempre soube que essa trama seria um sucesso?

Quando fui convidado para essa novela, o Rogério Gomes (diretor) falou da Maria Fernanda, a Carol não tinha sido escolhida, nem o Fiuk. Eu fiquei feliz à beça por ser uma novela das 21h, da Gloria, e por já conhecer o time do Papinha. Minha intuição era muito boa e quis fazer de cara sem ler a sinopse, mesmo tendo aprendido ao longo da vida que é melhor ler. A Fernanda perguntou: “Você leu?”; e eu disse: “Não. Vou ler ainda”; e ela disse: “Leia, é incrível. Você vai fazer, né?”; e eu já tinha dito que faria. Eu queria tanto fazer, por isso agarrei esse personagem, porque me senti muito preparado.”

Depois da novela você vai dar uma relaxada?

Recebi muitos convites, como um filme que recusei fazer. Tenho um plano de trabalhar num restaurante como assistente de cozinha, planos de fazer coisas totalmente fora da minha área. Ainda quero fazer algo diferente de atuação.

A peça continua?

Continua. Agora vai até 12 de novembro. Estamos há mais de 2 anos em cartaz. É muito raro, nessa crise uma peça continuar em cartaz por tanto tempo. Adoro fazer, porque é completamente o oposto do Eugênio. Se eu tivesse um projeto, eu adoraria divulgá-lo agora com vocês, mas não tenho.

Você falou sobre ser assistente de cozinha. E o Edgar de Senhora do Destino?

O Edgar é o personagem mais próximo que eu fiz do Eugênio. O Eugênio poderia ser um Edgar envelhecido. Vejo ele e penso: “Não é possível que eu fosse tão moleque, e eu tinha 30 anos”. Eu não lembro das cenas, mas lembro exatamente o que eu sentia e pensava. E é uma novela que ainda tem muita audiência. Senhora do Destino foi considerada a novela do século, não é? O Aguinaldo é um gênio, um craque, sabe tudo sobre a trama e mistura drama e comédia como ninguém.

Por que você teve essa vontade de trabalhar em um restaurante?

Eu gosto de viver pequenos universos. Trabalharia numa marcenaria, padaria e lugares assim.

Quais são suas manias além de fazer listas?

Sento nos mesmos lugares nos restaurantes, não passo embaixo de escada, antes de entrar no estúdio bato um pé no outro, e sempre entro com o pé direito. É a primeira vez que falo sobre isso (risos). Algumas delas são só manias, e outras me lembram um certo respeito pelo que vou fazer.

Se você chega no restaurante e seu lugar estiver ocupado?

(Risos) Eu sento em outro lugar, mas em geral não acontece porque eu gosto dos piores lugares também. Geralmente sento no balcão para conversar com os caras que cozinham, na minha vida toda, tento fugir desse lugar do glamour. Eu não sou o foco, meu trabalho que é.

Você também é diretor. Você tem estudado direção?

Eu dei muita aula de teatro, depois comecei a dirigir, até dirigi a Maria Fernanda no teatro, também o Felipe que está na Malhação. Tive convite para dirigir cinema, e eu gosto muito, mas não tenho como fazer tudo ao mesmo tempo. O bom é que abre para mais possibilidades de trabalho. Se eu fosse dirigir televisão, eu teria que estudar muito mais.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira