Carol Duarte comemora boa aceitação de Ivan, de A Força do Querer: “Me impressionou”

Carol Duarte
Carol Duarte (Reprodução)

Carol Duarte se surpreendeu ao se olhar no espelho e ver o que ela chama de sua versão masculina após a transformação de Ivan, seu personagem em A Força do Querer. Com a responsabilidade de discutir em um tema social na novela das 21h, a atriz conversou com nossa reportagem e falou sobre a representatividade das pessoas trans, a repercussão do público, o processo de caracterização do personagem e deu pistar sobre os rumos da história de Gloria Perez. Confira:

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Como está a repercussão nas ruas?

Caramba, estou andando pouco na rua, mas as pessoas estão aceitando a personagem super bem o que me deixa muito feliz. Construímos tudo para chegar até aqui, e a forma como as pessoas são carinhosas tem me deixado feliz.


Como é fazer essa barba?

Isso aqui demora em torno de 2 horas. As meninas da caracterização colocam pelo por pelo. É algo bem trabalhoso, mas não dói nem nada. Eu tenho medo de ficar passando a mão e cair, justamente porque sei o trabalho que dá.

É difícil para tirar depois?

Não. Tanto para colocar quanto para tirar usamos um produto especial.

Como foi se olhar no espelho e se ver tão diferente?

É engraçado. Fiquei surpresa, sempre penso: “Olha a minha versão masculina”. Gosto como atriz de interpretar uma personagem com a aparência diferente da minha. Eu gosto mais da minha versão feminina (risos).

Você tem tido tempo de acompanhar a discussão que isso tem gerado na sociedade?

Tenho, e isso é uma coisa muito legal. Vi esses dias que o Ministério Público postou uma foto do Ivan escrito “Ivan, aqui você não precisa se preocupar, pode fazer seu nome social”. Isso foi publicado após ir ao ar aquela cena em que ele não conseguia emprego pela aparência não condizer com seu nome. Essas conquistas sociais dão sentido ao nosso trabalho, é bom ver o público olhando para as pessoas trans de outra forma e compreendendo tudo. Isso para mim é demais, é o que me faz entrar todo dia no estúdio feliz.

Carol Duarte
Carol Duarte durante a caracterização para se transformar em Ivan (Divulgação/ TV Globo)

Antes da novela existia a preocupação com o tema. Você imaginou que fosse ter essa boa recepção?

O receio existia, mas principalmente a forma como a Gloria fez a trama da Ivana caminhar, fez com que público fosse descobrindo junto com ela, olhar para a questão dela sem preconceito e compreender o que acontece com a personagem. A boa aceitação se deve muito ao tipo de dramaturgia desenvolvido pela Gloria.

Você consegue se desligar do Ivan ao sair do estúdio?

Estou gravando por muitas horas, mas ao chegar em casa preciso desse momento. Eu sempre fiz teatro, e a dificuldade de se fazer uma novela é porque são muitos meses no mesmo personagem, muitas horas por dia. A dedicação tem que ser total, então o ator precisa saber se desligar e olhar para o trabalho como um trabalho. O Ivan mudou minha aparência, fez eu não depilar a perna, mas como atriz eu me empolgo com esse tipo de personagem.

Teve alguma cena marcante que foi difícil segurar a emoção até mesmo depois da gravação?

Aquela sequência em que ela revela para a família e depois corta o cabelo. Acho que todo mundo que gravou nesse dia, tanto elenco como equipe técnica, ficou mexido porque foi muito forte. Na medida que ela teve uma liberdade, teve também uma certa despedida. Foi muito intenso, até mesmo porque era uma cena performática, só poderíamos fazer uma vez por causa do cabelo, então ou eu tava ali, ou eu tava ali.

Como é o carinho das pessoas?

Incrível. Eu fico muito feliz. Ontem quando eu estava gravando na rua, uma menina de 9 anos me deu um presente dizendo que gostava muito do Ivan, e isso para mim é muito bonito. A geração que está crescendo agora vai ser diferente, porque talvez fique marcada com essas discussões. Os mais velhos também têm o maior carinho e querem proteger o Ivan de alguma forma. Talvez por conta do cabelo, as pessoas estão me reconhecendo um pouco mais.

Sósia de Ivan
Um dos sósias de Ivan, que surgiu na internet após a transformação da personagem (Reprodução/ Twitter)

Depois da transformação, surgiram vários memes e meninos parecidos com o Ivan na internet…

Recebi de muita gente essas imagens. Isso é muito legal.

Como você reage às críticas?

As questões que chegaram nas minhas redes tinham cunho religioso e eu não bato boca por isso, porque cada um tem sua religião e precisamos respeitar. Não é um discurso agressivo, mas é sempre algo do tipo “Deus criou o homem e a mulher”. Os próprios seguidores discutem entre si nas minhas redes a respeito disso, mas eu não costumo discutir. Sabemos que o Brasil é o país que mais mata trans, e até agora não tive esse tipo de agressão verbal nas minhas redes. Alguma coisa está acontecendo. A Gloria construiu muito bem a trajetória do Ivan.

Sobre a sua vaidade, você disse que não se depila há algum tempo. Você não se importa?

Não me ligo muito a isso não. Estou sem depilar as pernas desde o início do ano, e ando de shorts, afinal tem tantos tipos de femininos. Esse personagem me fez compreender isso também. Para ser mulher a gente tem que se depilar? Tem que andar de saia? Para ser homem tem que ser brutão? O que nos diferencia? Qual o limite entre um homem e uma mulher? Quando eu conversava com pessoas trans para construir a personagem, algumas me diziam “Me sinto um homem”, e tinha uma provocação minha como atriz, e eu pensava “O que é ser um homem?”. Se depilar para mim, é uma coisa social.

Embora passe por dificuldade, o Ivan é feliz, diferente da Ivana. Como é para você interpretar essa diferença?

No momento que ela revela para a família, tem uma certa liberdade que vem com dor e sofrimento porque tem um rompimento ali. O Ivan não cortaria o cabelo se para ele não fosse importante e ele não fosse ser feliz. Essas pessoas não escolhem isso, então tem uma felicidade.

Como você lida com a imprensa hoje, e como é ver o crescimento das suas redes sociais?

Eu achei tão maluco ter meio milhão de seguidores. Eu fico feliz, mas foi muito rápido, não é? A novela tem uma dimensão enorme e é difícil se dar conta de que é o Brasil todo que assiste.

As redes sociais bombaram com seu relacionamento. De que maneira você enxerga isso?

Eu estou bem feliz com esse momento todo. As pessoas têm que ser felizes do jeito que elas são e o Ivan fala muito disso. Ninguém tem que ser agressivo por conta de religião, raça, gênero. Isso precisa acabar. Estamos em 2017, então essa fase que a gente está vivendo, estou dando muita entrevista falando disso, o que acho bacana. Muitas pessoas trans conversam comigo e falam que estão felizes. Quando comecei a fazer a Ivana, eu fiquei preocupada porque essas pessoas estão vivendo aquilo e é muito importante falar sobre elas. Quando elas me falam que estão se sentindo felizes pela forma como são retratadas através do Ivan, eu fico feliz e acredito que esse é o momento de todos se respeitarem.

Você se incomodou de seu relacionamento ter recebido holofotes?

Eu fico feliz de que as pessoas me respeitem, como artista e como pessoa, é sempre isso.

Saíram notícias sobre a Globo ter assinado um contrato de 5 anos com você, e que a Manuela Dias, autora de Justiça, já estaria interessada em você para a novela dela de 2019. É verdade?

Eu não estava sabendo disso. Estou sabendo agora por vocês (risos).

Você já gravou a cena que o Ivan perde o bebê?

Não. Quando fiquei sabendo que ia ser por espancamento, fiquei em alguma medida triste porque isso acontece, mas é necessário ser colocado na novela. Isso faz parte deste mundo. As pessoas são mortas por conta disso. O Ivan já teve cenas que ele foi agredido verbalmente e quase fisicamente, e até conversei com uma pessoa trans e ele me disse uma coisa que fiquei chocada, que eu não sabia que existia: estupro corretivo, e isso é muito pesado. É interessante a Gloria colocar na trama esse tipo de violência que acontece nas ruas todos os dias, provavelmente agora enquanto estamos aqui conversando. O Ivan está tendo uma aceitação muito legal, e eu acho que se as pessoas verem esse personagem sofrendo essa agressão, elas podem olhar mais para essa questão da violência.

Devido à personagem, você se aproximou de movimentos sociais?

Antes de fazer a novela, eu fazia escola de artes dramáticas na Universidade de São Paulo e lá discutíamos muito o machismo, então sempre estive próxima a esse tipo de discussão. Claro que com o personagem me aproximei muito e tenho contato com pessoas que são de movimentos trans. É importante saber. Quando comecei a construir o Ivan procurei ver pontos de vista diferentes sobre a questão. Pessoas da periferia vivem uma coisa, já pessoas da classe média alta vivem totalmente outra coisa. Procurei inúmeras fontes para que o Ivan fosse construído através de certa pluralidade.

Como é a sua relação com o Tarso Brant?

Foi uma pessoa que conversei antes da novela, e ele entrou na novela, e isso foi muito legal. Acho que o trabalho é o mais importante. Ele contribuiu muito quando conversei com ele e com outras pessoas, é um cara que vive isso.

Fazendo uma análise da sua trajetória como Ivana/Ivan, o que mais a impressionou em tudo?

Difícil falar agora porque estou no meio, mas a repercussão enorme foi o que mais me impressionou e a aceitação do Ivan.

Durante nossos encontros você sempre falou sobre seus pais. Como foi a reação deles assistindo à cena da Ivana contando para os pais?

Eu não vi com eles, mas eles ficaram super felizes. Eu levei um cachinho do meu cabelo para minha mãe, e ela ficou feliz. Eles estão adorando a aceitação.

Como você faz para trocar a chavinha de não levar isso?

Não sei responder isso. Vou pra casa, escuto musica, falo com minha família, mas não dá pra me desligar tanto porque no dia seguinte estou aqui.

Você já foi para casa com a barba sem querer?

Quase (risos). Não fui porque não me deixaram. Falaram “Opa, você tá de barba”.

Depois da cena do espancamento, vai acontecer uma situação da Joyce vê-lo finalmente como Ivan. Seria o começo de uma aproximação?

Ali tem um encontro de reaproximação sim, mas não sei mais que isso.

A Juliana Paes disse que perdeu 3 quilos por causa das cenas da Bibi. Com você também aconteceu isso?

Sim, eu também perdi. Não sei quantos quilos mas perdi, porque o ritmo é muito intenso e trabalhamos muito.

Cláudio (Gabriel Stauffer) e Ivana (Carol Duarte) de A Força do Querer
Cláudio (Gabriel Stauffer) e Ivana (Carol Duarte) de A Força do Querer (Reprodução/TV Globo)

E o Claudio nessa história toda?

Não sei nada sobre isso ainda.

Muita gente não gostou quando a Gloria anunciou que o Ivan ficaria grávido. O que você achou?

Conversei com algumas pessoas e é do direito de um homem trans engravidar se ele quiser, então, acho interessante mostrar isso, que existe essa possibilidade. Na internet tem caso de homens que ficaram grávidos.

Novelas não têm responsabilidade social nenhuma, e as pessoas esquecem rápido. Quanto tempo você acha que vai durar essa discussão devido à novela?

Eu acho que a novela cumpre um papel de abrir portas para diálogos para que as pessoas busquem mais informação. A novela sozinha não dá conta da complexidade social de seus temas. Acho que a novela pode abrir o diálogo até para falarmos com mais clareza, porque muitas pessoas não sabem o que é cisgênero, transgênero, gênero não binário, e isso pode fazer com que elas pesquisem mais. E talvez a medida que as gerações avancem, elas comecem a ver isso como normal, e não como aberrações como as pessoas trans já foram chamadas.

O homossexual também te para nas ruas para agradecer?

Também. O ponto em comum é essa relação familiar, de chegar para a família e falar sobre sua sexualidade. Dentro da casa das pessoas é difícil entrar para ajudar de alguma forma, e a novela acaba tendo aquele de poder de fazer as pessoas pensarem a respeito, que seja mínimo mas para aquela pessoa pode fazer muita diferença.

Você está feliz com tudo o que tem acontecido na sua vida?

Estou muito feliz. O Ivan tem dado frutos bacanas na sociedade e como atriz isso me inspira demais.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira