Ana Hikari, de Malhação, fala sobre a boa repercussão de sua personagem nas redes sociais

Ana Hikari como Tina
Ana Hikari (Divulgação/ TV Globo)

Ana Hikari interpreta a Tina, uma das protagonistas de Malhação – Viva a Diferença. A atriz conversou com nossa reportagem e contou sobre o drama da personagem, a torcida do público pelo romance entre Tina e Anderson (Jhuan Paiva), e  a experiência em morar longe de sua família e amigos:

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O público de Malhação tem fama de ser muito intenso. Como é para você a repercussão da personagem?


É muito legal, e eu não imaginava que seria assim. Os fãs são muito carinhosos, por isso não acho que seja assédio, e sim carinho. Eles mandam mensagens, se identificam com a história da Tina, com o romance proibido da Tina e do Anderson (Jhuan Paiva).

Você imaginava esse sucesso?

Eu não imaginava. Já tinham me falado que era uma coisa absurda o crescimento nas redes sociais, mas eu não imaginava que fosse assim. Fiquei positivamente surpresa.

Como você vê essa atitude forte da Tina de peitar todo mundo para viver esse amor pelo Anderson?

Eu admiro muito porque por muito tempo colocaram para a mulher o estereótipo de submissa, e todas as personagens femininas de Malhação mostram que nós mulheres, podemos ser decididas, fazer escolhas na vida, e superar preconceitos.

Você tem um grupo de amigas como as meninas de Malhação?

Tenho meu grupinho, mas elas infelizmente estão em São Paulo e morro de saudades delas. Fico até emocionada só de falar.

O que mudou de lá para cá? Como é sua rotina no Rio de Janeiro?

A gente trabalha de segunda a sábado então minha rotina aqui é casa e trabalho. Quando chego em casa estudo pra caramba porque tenho muito texto. Procuro estudar coisas além do texto para compor o universo da Tina, como animes, mangás, K-Pop. No sábado à noite vou para São Paulo, vejo meus pais, tento encontrar alguns amigos, e volto no domingo.

Você namora?

Namoro. O nome dele é Gersínio Neto, mora em São Paulo também, mas é da Bahia.

Ele te assiste na TV?

Sim, ele adora. Além dos meus pais, ele era o único que sabia dos meus testes para a Malhação, e ele me apoiou muito. Se não me apoiasse também, ele não estaria comigo.

Sobre a representatividade oriental, como é para você representar uma parcela da população?

Esse é um assunto muito importante para mim, e sempre tento falar sobre, porque a representatividade sempre foi complicada tanto para negros como para orientais, e sinto que nessa Malhação e nas novas obras isso está mudando. Temos que continuar a bater nessa tecla senão não estaremos mostrando a realidade, senão vai acontecer o que aconteceu comigo quando era criança. Eu olhava para a TV e eu não via pessoas que eu pensasse: “Essa sou eu”, e você cresce sem saber que você pode ser bonita, forte, independente, decidida porque você não vê personagens com os quais se identifica.

Você sente que está sendo essa referência para outras meninas?

Sim. E recebo mensagens de meninas orientais me agradecendo por estar fazendo esse papel e falando sobre isso abertamente. Até encontrei com a Luana Tanaka que faz Novo Mundo, e comentei que ela foi uma das pessoas que me inspirei na época em que ela fazia Morde & Assopra. Quando eu a via na TV, eu pensava: “Posso ser atriz também”. Essa é a importância da representatividade, você olhar para um espaço ocupado por alguém e dizer “Um dia também posso ocupar esse espaço”. Quando falei com ela, ficamos muito emocionadas.

Sua personagem é muito musical. Qual é a sua relação com a música?

Eu gosto muito de música, e sempre trabalhei muito com música desde pequena. Entrei na aula de canto com 8 anos de idade, fiz escola municipal de música e cantei no coral infanto-juvenil, mas nunca tinha tocado violoncelo antes. Tomei um susto quando fiquei sabendo desse detalhe sobre a personagem, e comecei a fazer aulas de instrumento, postura, forma de pegar no arco, no braço do violoncelo para passar certa veracidade. E tenho aprendido muito sobre o K-pop, J-pop, e J-rock, que é uma coisa que eu não conhecia do universo oriental.

Você não consumia nenhum produto cultural oriental antes de interpretar a Tina?

Acho que “nenhum” é muito forte. Atualmente a gente acaba vendo um pouquinho de cada coisa. Na minha família, por parte de mãe sou descendente de orientais, por parte de pai, sou descendente de negros. Eu tenho mais apego com a parte do meu pai, com a cultura brasileira. Por muito tempo tive um distanciamento da cultura oriental, e fui buscar por causa da Tina.

Você conhece o Japão?

Eu fui para o Japão quando eu tinha 4 anos de idade, e até me lembro bastante. Mas engraçado que fui por causa do meu pai, que ganhou uma bolsa para fazer doutorado no Japão, e não por causa da minha mãe, que é oriental.

Você acha que seus pais em algum momento viveram uma situação parecida com a da Tina e do Anderson?

Infelizmente eles viveram sim. A diferença é que na família da minha mãe, ele foi muito bem aceito. Ele foi uma das pessoas que apoiou muito a família da minha mãe a se reunir. Ele agregava as pessoas, e foi muito bem aceito. Isso é uma diferença em relação à Tina. Já na rua, em lojas, e no cotidiano aconteceram situações que meus pais passaram e que infelizmente acontecem até hoje. Aconteceu por exemplo da minha mãe ser abordada e falarem para ela que ela estava sendo seguida por um cara suspeito, apenas porque meu pai é negro. Coisas desse tipo acontecem. A gente vive num país miscigenado, mas que tem muito preconceito intrínseco.

Quando você pega esses blocos de capítulos e o preconceito está bem ali, você se emociona ao pensar no que seus pais passaram durante essa jornada?

Muito. Acho que o texto do Cao tem um poder de pegar a gente de verdade. Eu leio o bloco inteiro, não apenas as minhas cenas, e é uma emoção atrás da outra. É importante falar sobre isso e tem cenas que pensei na minha própria vivência e na vivência dos meus pais. A cena que o Anderson é abordado pelos seguranças na porta do colégio, eu estava totalmente entregue, porque eu pensava em quantas pessoas eu não conheço que já passaram por aquela situação de racismo.

Seu pai conversa sobre isso com você?

Muito. Meu pai passou por uma situação de racismo explicito que até hoje não engolimos. Eu tenho rinite, e meu pai estava na farmácia comprando um lenço de papel para mim e a gerente o abordou dizendo que ele iria roubar. Ela disse “Pode se retirar, você está aqui para roubar”, e ele disse, “Minha senhora, eu estou aqui para comprar esse lenço”, e ela respondeu “Você não tem dinheiro, está na sua cara que você não tem dinheiro”, e ele tentou conversar, chamou a polícia. A polícia recomendou que ele abrisse um boletim de ocorrência, e o processo ainda está em andamento após 1 ano.

E a Malhação deste ano tem justamente a proposta de mostrar as diferenças…

O mais legal na nossa Malhação é mostrar que as diferenças podem existir e coexistir, e isso é essencial no mundo. Debater e assumir que as diferenças existem. Não adianta falar: “somos todos iguais” e não discutir o que vem além disso. Já que somos diferentes vamos viver bem? O que fazer para viver bem? Meu pai foi muito importante para a minha vida e para a minha formação porque ele sempre trouxe esse debate para mim de maneira sutil, delicada e compreensiva. Sempre trouxe debates para casa através da arte. Conheci um coletivo de arte, chamado Frente 3 de Fevereiro, que é um coletivo negro que debate o racismo no mundo e fui entender com 7 anos de idade, não porque meu pai falava, mas porque eu via performances, vídeos, peças que falavam através da arte. Por isso estou aqui, porque acredito que a arte pode sensibilizar as pessoas e fazê-las entender o mundo de maneira mais gostosa de se conviver. E fazemos um trabalho com arte para trazer essa mensagem.

Falamos sobre os fãs muito intensos. Já teve algum que fez alguma loucura como tatuar seu rosto e coisas desse tipo?

Não, assim não (risos). Teve um fã muito querido que fez uma camiseta com uma estampa da Tina, e me presenteou com uma caneca com a mesma estampa. Achei muito fofo.

Você se tornou realmente amiga das outras protagonistas de Malhação?

Essa pergunta não tem nem como responder de outro jeito. A gente é colada, fazemos um monte de coisas juntas. Como moramos no mesmo lugar, estudamos juntas. Marcamos de jantar todas na mesma casa, e ficamos comendo e estudando o texto.

Como você está lidando com a imprensa?

Estou supertranquila porque gosto de ler as coisas que são verdade sobre mim, e fico feliz com todas as entrevistas lindas que tenho feito, porque além do que digo, a forma como vocês colocam é muito legal.

Está dando para aproveitar alguma coisa legal do Rio?

Dá. Não costumamos ir para festas, mas gosto de ir a peças e museus. Fomos no Museu Nacional, no Teatro municipal assistir ao Grupo Corpo. Sempre tento ir para atividades culturais porque é uma vivencia muito grande para a gente como artista.

Tem algo que você ainda quer fazer no Rio de Janeiro?

Estou desde janeiro querendo ir no museu do amanhã.

Você gosta de praia?

Muito. Quando eu era criança eu não gostava, mas hoje em dia gosto muito.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano