Estrela da série Filhos da Pátria, Fernanda Torres opina sobre política: “Estamos numa crise geral longa”

Fernanda Torres
Fernanda Torres (Divulgação/ TV Globo)

Sucesso em várias séries de humor, Fernanda Torres será Maria Teresa, na em Filhos da Pátria, nova comédia escrita por Bruno Mazzeo que estreia na Globo em setembro. Em entrevista, a parceria de Alexandre Nero na produção, deu detalhes sobre a personagem e comentou sobre a política nacional, principal inspiração do programa:

Leia também: Em A Força do Querer, Bibi será coagida a matar um homem

Como foi fazer a série?

Foi uma alegria fazer a série, porque é um texto tão inteligente, sobre um assunto que veio tão na hora. Tão legal um projeto que fala sobre o país com humor e inteligente, e com atores maravilhosos. É um prazer fazer parte de algo tão bacana assim.

E este é seu primeiro papel de época?

Acho que já fiz alguns, mas nunca tinha feito um seriado de época. Esse seriado é um espelho do nosso comportamento contemporâneo, com músicas contemporâneas e relações sociais como as que temos hoje.

E vemos ali situações em que a gente acaba infelizmente lidando no dia a dia…

É um risco porque tocamos em assuntos como escravidão, machismo, patrimonialismo, corrupção, então existe o riso do absurdo, e reconhece o absurdo do qual somos fundados.

O marido da sua personagem Maria Teresa, acaba se corrompendo, e ela acaba percebendo que existe um dinheiro naquela renda familiar?

Ela percebe, mas não se atém muito ao que está acontecendo de errado. Para ela só interessa o que está entrando.

É um filme que já vimos na vida real. Onde você encaixa essa mulher no contexto da corrupção?

Eu acho que a gente tem no Brasil casos em que o casal agia em sociedade na corrupção, e tivemos outras situações em que a mulher era recatada, do lar e usufruía daquele benefício, e a Maria Teresa é uma mulher que não trabalha, inclusive ela acha trabalho um palavrão e acredita que a única maneira de ascender socialmente é entrar para a corte. Ela não é bem uma sócia do marido no malfeito, mas ela não tem nenhum problema de aquilo vir do malfeito, pelo contrário, ela acha que aquilo é sinônimo de virilidade do marido, ele ter coragem de roubar.

Ela é uma espécie de Claudia Cruz?

Aquela declaração da Cláudia Cruz que ela era uma mulher do lar e não tinha a menor ideia da origem do dinheiro do marido, eu olhei e falei “Meu Deus, é a Maria Teresa”, e essa questão da aula de tênis, jantares nos restaurantes mais caros, e os gastos feitos de uma maneira tão “novo rico”, isso é totalmente Maria Teresa, que começa a comprar carruagens, faisões de prata e coisas que ela não precisa só pelo prazer de gastar.

O marido dela era honesto e ele demora a entrar no esquema…

Isso é o que eu adoro na série. É um sistema que vai corrompendo ele. Ele não é isso, mas ao longo da série ele se esquece que não era isso, e adoro o personagem do Nero que é um cara que sofre muito até pegar aquele dinheiro, e depois de um tempo ele esquece. Por quê? Porque ele passa a ser respeitado na casa dele, o que é outra questão interessante, porque somos um país patriarcal, paternalista, e ele passa a ser um provedor. Embora se corrompendo e se perdendo como pessoa, ele está ganhando como homem.

Você acha que a maioria das pessoas podem ser corromper?

Tem muitas vezes que o modus operandi faz você achar que aquilo não é errado. Outro dia vi uma discussão sobre isso, das diferenças entre os tipos de caixa dois. O dinheiro que o cara usa para financiar a campanha, e o dinheiro que ele usa para enriquecer ilicitamente. O sistema financia campanhas através de caixa dois, este que muitas vezes vem da obra superfaturada, da estrada que não termina, do hospital não construído. Claro que o cara que usa para enriquecer é algo patológico, mas o dinheiro que financia campanhas também foi desviado de obras públicas, então é um caso que o sistema é assim, está errado, e não se consegue uma reforma política por isso. É uma espécie de arco-íris com várias gamas de cores, desde o cara que tenta enriquecer com isso, como o ex-governador do Rio de Janeiro, até aquele cara que aprendeu que é assim que se faz política.

Você passou por alguma situação de tentarem te corromper?

Sim, acho que tem a questão do patrocínio cultural, mas é muito claro para mim o que não fazer. O melhor é não fazer o filme, a peça, porque assim não é possível. Hoje em dia houve um avanço muito grande da fiscalização em cima disso. Eu não uso lei Rouanet há 10 anos, mas era altamente fiscalizado, então acho que se alguém não foi fiscalizado é porque deve ser gente com cacife muito alto. Todo mundo que conheço teve sua contabilidade meticulosamente examinada, todo o Fisco é muito violento.

A gente assiste a série e ri porque identifica o que está acontecendo agora no país, mesmo a história se passando há mais de 200 anos. Você acha que é possível que a situação melhore?

Ah gente, eu não tenho bola de cristal. Nunca é um movimento só da sociedade, existem os movimentos contrários a isso, e movimentos para que isso continue. Neste momento ao mesmo tempo que tem gente indo para a justiça por ter agido assim, tem gente sendo liberada porque agiram do mesmo modo. São diferentes movimentos políticos e do mercado. Me sinto extremamente ingênua e incapaz de mudar. Não sei qual poder vai subir ali em 2018. Está tudo diferente.

O Bruno Mazzeo disse que somos um país condenado à esperança. Você tem esperança?

A frase que ele disse é do Millôr Fernandes, “O Brasil é um país do futuro sendo que esse se aproxima a cada dia que passa”, então acho que ele se referiu a isso, o Brasil condenado a ser um país do futuro. Coisas que estavam em banho maria, já não estão mais. A desigualdade social está indo numa violência que ninguém mais suporta. A gente está no meio de uma tormenta, e não sei se forças violentas e retrógradas vão subir ao poder em 2018.

Qual seu sentimento sobre o arquivamento do processo de corrupção passiva do presidente Michel Temer?

Eu achava mesmo que era isso o que ia acontecer. Acho que tem um lado que acha que deve se ficar como está, porque estamos na lama e não se deve fazer marola. Não foi uma surpresa para mim e acho que esse é o jogo, forças políticas e econômicas acham que é melhor assim. Acho que existe um movimento de empurrar com a barriga em nome de uma estabilidade econômica talvez. Não sei qual vai ser a próxima denúncia do Janot, mas mais do que uma mala de dinheiro numerado, é difícil aparecer. Pessoas sendo condenadas enquanto outras são soltas, no senado, na presidência.

Como você decidiu sua participação na série?

O Bruno me chamou para tomar um café para conversar sobre projetos futuros, e ele me falou que estava escrevendo, e me mandou para eu ler. Eu li, e um dia falei “Pô Bruno, tem aquela Maria Teresa ali dando sopa. Se um vocês fizerem me candidato a Maria Teresa”, e quando rolou, aí eles me chamaram. É uma personagem maravilhosa.

Uma vez você disse que o Brasil era como um iceberg afundando. Você ainda sente isso?

Eu falei isso? Olha, eu já passei por algumas coisas, e quando começou essa crise que disseram que duraria 1 ano, eu pensei “Isso tá com cheiro de 20 anos”, porque já vivi crises que duraram 20 anos e retomadas que duraram 20 anos. Acho que estamos numa crise geral longa, porque o PT e o PSDB que são partidos que vieram da redemocratização demoraram 20 anos para serem gestados, e agora desarrumou a casa. Me sinto à deriva, porque vai levar um tempo ainda para outras forças políticas surgirem e serem gestadas.

Você se inspirou em alguma personalidade da época?

Não. Eu não me prendo muito nessa coisa da época, até porque quando mais normal e mais perto de hoje a série, é melhor. Ela é de uma família classe média de hoje e o grande barato é isso, a linguagem da série não é formal e nem há porque ser.

Quando ficou pronto, você já quis ver?

Não, só fui ver ontem numa sessão que teve para funcionários da Globo. Eu adorei os atores, assisti com enorme prazer.

É um tipo de trabalho que você gosta de fazer?

Eu adoro séries. Os Normais e Tapas & Beijos tinham a diferença por serem sitcoms, onde você tem uma premissa Ad Eternum experimentando aquelas relações. A série você entra sabendo para onde o personagem vai, que a Globo agora está começando a dominar.

E esse trabalho com o Nero?

O Nero é adorável. Acho ele maravilhoso na série porque ele faz trágico. Ele é ótimo, adorei a parceria com ele.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira