“Estou adorando ficar assim largado” conta Guilherme Piva sobre sua caracterização em Novo Mundo

Guilherme Piva
Guilherme Piva (Divulgação/ TV Globo)

Guilherme Piva anda fazendo todo mundo rir de seu personagem, o Licurgo da novela Novo Mundo. Com 32 anos de carreira, o ator conversou com jornalistas durante uma pausa das gravações da novela nos Estúdios Globo, onde contou algumas curiosidades. Confira:

Vivianne Pasmanter fala sobre sua personagem em Novo Mundo “Me divirto com o jeito sonso da Germana”.

Quanto demora a sua caracterização?

Não demora muito, porque coloco a roupa em segundos e o restante é só sujar, sujar e sujar. A Vivi (Vivianne Pasmanter) se maquia inteira devido ao tom de pele, mas no meu caso é só sujeira e óleo.

Você fez uma peça há pouco tempo que era um Homo Sapiens.

Me ajudou muito. Na verdade eu vinha cultivando essa barba e esse cabelo desde lá. Era A invenção do Amor, dos mesmos autores da novela, em que Maria Clara Gueiros e eu atuávamos juntos. Quando acabar a novela entraremos em turnê com essa peça.

Como tem sido a recepção do público em relação à novela?

Muito muito boa! É bem curioso porque é um casal politicamente incorreto demais, e creio que o humor salva tudo. Conseguimos com humor fazer a crítica a esses pequenos atos errados que todo mundo faz. As pessoas reclamam do país e da política mas na primeira oportunidade de poder se dar bem fazendo algo, as pessoas fazem, e esse casal é assim. Estou numa caracterização que pouca gente me reconhecia, agora com o tempo as pessoas já me conhecem, e quando chegam perto dizem “Até que você cheira bem” (risos).

Como que fica sua vaidade?

Zero vaidade, acabou a vaidade praticamente porque não sei lidar com cabelo e barba desse tamanho. A Vivi até me deu umas dicas de shampoos e cremes, mas estou adorando ficar assim largado. Acho que o bom do personagem para o ator é isso e eu já coloquei na cabeça que até setembro vai ser assim, então tenho saído de casa com qualquer roupa, menos vaidoso e menos ligado, e estou curtindo essa coisa meio hippie.

Você acha que o público reconhece mais o ator devido ao personagem?

Agora está acontecendo muito isso, outro dia fui assistir ao musical Bem Sertanejo, e ouvi um pessoal comentar “Olha, mas ele não é gordo”. Acho que a vinculação do meu rosto com o personagem é mais difícil, agora para as pessoas eu sou o Licurgo, o que acho uma delícia.

Quanto tempo você está fazendo de carreira?

São 32 anos. Comecei a atuar em 1985 e primeira peça foi em 1986.

Você foi um ícone da extinta TV Manchete. Qual personagem mais te marcou?

Xica da Silva foi um marco na minha vida, porque foi onde aprendi a fazer televisão. Considero o Avancini um grande mestre na minha vida, mas ali eu sofri muito. Quando entrei para o elenco, a novela já estava rolando, e eu não conhecia o mecanismo da televisão. Fora a composição, que como era um personagem à frente do seu tempo e eu não achava inicialmente que cabia na televisão e o Avancini me disse “Quanto maior a verdade, maior a composição”. E eu dividia assim: Era novela de época, então já era uma composição. Era um personagem que vivia nos moldes da França, então composição em cima da composição. E o personagem tinha várias questões com todo mundo em torno dele, e aí juntar tudo, decorar, luz, marcação, sofri um pouco para aprender, depois fiz Mandacaru, e foi mais fácil.

De Xica da Silva pra cá, você só viveu de arte?

Xica da Silva foi 1996, eu estreei no teatro em 1986, então eu já interpretava há 10 anos fazendo cerca de 3 ou 4 peças por ano.

Teve rejeição da família em relação à escolha da profissão?

Teve claro, todos os clichês possíveis (risos). Todo mundo do interior, do Sul, na família não tinha nenhum artista e ainda era composta por médicos e advogados. Meu pai que é advogado e tem um escritório queria que eu trabalhasse com ele. Entrei na faculdade, larguei e me apaixonei loucamente por teatro e aí tem aquelas coisas que os pais dizem “sem faculdade você não vai ser ninguém”, e acabei fazendo faculdade de teatro depois.

A Vivianne nos contou que vai lendo o texto e se diverte pela Germana ser sonsa. Qual sua reação ao ler o texto e ver aquelas coisas absurdas?

Eu acho excelente porque são realmente frases absurdas. Todos nós temos vários impulsos dentro da gente, sentimentos como amor, raiva, inveja, ódio, ambição, e a gente aprende na sociedade a abafar isso porque é feio, mas não deixamos de sentir. E o ator quando pega um personagem que tem inveja por exemplo, ele solta toda a inveja dele, o ódio dele. Às vezes a gente fala coisas ruins com um tom de crítica assim como fizemos a cena deles escolhendo os escravos, porque sabemos que o preconceito existe, então é um texto com humor mas que incomoda, e acho absurdo termos ainda preconceitos raciais e matança de homossexuais. Eu dirijo um prêmio bienal do Estado chamado Rio sem Preconceito, sobre as minorias e é impressionante o número de pessoas que morrem, que não tem emprego por preconceito, então acho que estamos prestando um serviço além de só fazer humor. Eu fico tentando fazer como seriam os sentimentos das pessoas em relação aos acontecimentos, agora teve a taberna que fechou então tento colocar que aquilo para o Licurgo é uma coisa muito triste, porque era com aquilo que ele vivia e o que já é absurdo fica mais ainda. As pessoas têm esses sentimentos por coisas erradas e tento buscar emoção nas coisas erradas.

Você esperava essa química com a Vivianne Pasmanter?

Fizemos um trabalho grande de preparação e nos empenhamos muito para esse casal ter uma química. Eu tenho uma informação de personagem, como a Ingrid (Guimarães) estava falando que é a do teatro e do timing de comédia, e a Vivianne trouxe a construção de peso, de televisão e fazemos esses dois personagens interagirem. O tamanho que este núcleo está se tornando é uma surpresa feliz.

Existe amor nesse casal?

Existe muito amor, mas é um amor distorcido. O Chay falou “Vocês são o único casal que trepa nessa novela” e é verdade. É uma relação que de muito afeto.

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano.