De volta à Globo, João Vitti revela “Fazer personagem bíblico na TV Record me saturou”

João Vitti (Divulgação/ TV Globo)

João Vitti está feliz da vida! Após um longo período afastado da dramaturgia, o artista retorna ao vídeo no papel de um padre descolado em Sol Nascente, que celebrará o casamento de Mario (Bruno Gagliasso) e Alice (Giovanna Antonelli) na trama das seis da TV Globo.

Em uma conversa intimista, o ator falou dessa participação na trama global e não economizou criticas em relação à Record TV, onde  foi contratado por anos. “Eu passei esses últimos anos, eu tinha um contrato na Record TV e lá me saturou um pouco essa coisa de estar sempre fazendo personagem bíblico, sempre com um perfil muito parecido. Fora a estrutura de trabalho que a gente tinha que não vou dizer que era das melhores”, criticou o patriarca da família Vitti.

Confira o papo:

Como você encarou a sua participação em Sol Nascente e o seu retorno à Rede Globo?


“Voltar sempre é bom, trabalhar, estar no set, eu gosto muito. Rever amigos, fazer novas amizades, estar aqui dentro nessa estrutura que é de primeira qualidade. Fico muito feliz, é uma oportunidade sempre bem-vinda.”

O seu personagem é um padre descolado. O que você acha sobre religiosos terem uma postura menos conservadora?

“É, eu acho legal. O mundo precisa de uma visão mais moderna. Eu acho que o Papa Francisco é um cara que já vem trazendo um discurso muito mais aberto, muito mais humano, defendendo o respeito e a diversidade das pessoas.”

Você se inspirou em algum religioso da vida real?

“Na verdade eu não me inspirei muito não. Como é uma participação e a cena que eu tinha em mãos trazia muito mais essa coisa descontraída. Um padre que gosta de rock and roll, tem tatuagem, enfim, que não segue aquele padrão da moral. Eu acho bacana porque aproxima mais da realidade das pessoas.”

Você tem alguma ligação com a religiosidade?

“Sim, eu estudei anos em colégio de Padre. Na época, com 15 anos eu pensei em ser padre. Mas eu encontrei na filosofia budista a liberdade de ser quem eu sou e assumir a responsabilidade de tudo que ocorre na minha vida, porque na verdade nós somos responsáveis. Essa coisa de que Deus vai castigar, de que Deus vai abençoar, isso sempre foi uma coisa desconfortável para mim. E essa coisa de você depender de algo ou de alguém ou de alguma força superior pra ditar o destino da sua vida, eu sempre me via dentro desse contexto como um coadjuvante da minha própria história. Então no budismo eu encontrei a liberdade de ser o autor e o protagonista da minha história. E responsável por tudo que eu faço.”

Você passou um período longe da TV, se dedicou a outros projetos?

“Eu passei esses últimos anos, eu tinha um contrato na Record TV e lá me saturou um pouco essa coisa de estar sempre fazendo personagem bíblico, sempre com um perfil muito parecido. Fora a estrutura de trabalho que a gente tinha que não vou dizer que era das melhores. Mas eu não parei não. Eu fiz vários curtas, dois longas, fiz teatro… Da TV Globo eu acho que estou distante desde aquela série do ‘Fantástico’. Fiz uma participação em ‘Malhação’ também. É isso aí, eu estou voltando. Estou pra fazer 50 anos eu brinco: ‘já criei meus filhos, a gente que tem filho sempre se preocupa em formá-los, em criar meios para que eles andem com as próprias pernas e acho que isso está acontecendo agora’. Então eu penso que aos 50 anos eu estou zerando, eu estou começando uma nova carreira, como se eu fosse um ator começando.”

Seus filhos estão atualmente na Rede Globo, como você enxerga isso?

“Engraçado que tem gente que fala assim: ‘Esses meninos, Rafael e Francisco, tem pistolão. O pai dele é diretor’. Mas não tem nada a ver. Está mais fácil eles arrumarem trabalho pra mim do que eu pra eles. Mas eu fico feliz pelo Rafael, pelo Francisco. Eles são bastante empenhados, dedicados, apaixonados por essa profissão, centrados, educados, profissionais e estão aprendendo. Eu sempre falo para os dois que eles estão na melhor escola de televisão que eles poderiam estar. Vocês têm a oportunidade de aprender trabalhando, vocês têm toda uma estrutura que a Globo oferece antes de começar os trabalhos, que é a preparação. Isso já é extraordinário. Eu não posso querer que um garoto de 20, 22 anos, que está começando seja um ator perfeito. Eu desejo muito que eles se tornem artistas de primeira categoria.”

Você acredita que a educação dos filhos hoje em dia é diferente?

“Com certeza, eu dei aula alguns anos de teatro num colégio no Rio de Janeiro, e eu vejo muito que os pais hoje em dia terceirizaram a educação dos seus filhos. Eu não vejo os pais tão presentes no dia a dia. Presentes que eu digo no diálogo, olhar para o filho e ver que ele está com o semblante diferente e você ir lá e puxar uma conversa. Fazer com que ele se sinta acolhido para confidenciar os seus próprios conflitos. Hoje eu vejo muitos pais dando presente, como um Iphone 7 para o filho como gesto de carinho. Eu e a Valéria, a gente se sacrificou muito, até pela nossa profissão que é de altos e baixos, a gente tá sempre na corda bamba. E essa orientação é muito bom para eles saberem que a realidade ela se dá no presente, o resto é tudo uma ilusão. Ou que cria ansiedade ou que fica preso a um arrependimento. Por isso momento presente é o momento de maior liberdade e você pode reescrever sua história a cada instante. Para isso é preciso coragem, decisão e os nossos filhos sempre foram educados dentro desses valores.”

Como você disse, a profissão de ator é de altos e baixos. Você teve colegas e amigos que já se deslumbraram ou surtaram devido à isso?

“Já, já, já, já. Já vi sim. Você vive uma realidade que não é realidade. Você começa a se achar melhor que os outros. Você acha que sua vida está resolvida porque você fez uma novela, fez sucesso, tá com dinheiro, e acha que é aquilo. Não, a vida é longa, é cheia de percalços e eu acho que o grande aprendizado, eu acho que o que forja mesmo a nossa melhor habilidade de ser humano e de vencer, são as dificuldades, são as adversidade. No bem bom ninguém cresce.”

Como você se sente recomeçando a carreira?

“Tentando trazer aquele espírito jovem de quando eu estava começando lá, 30 anos atrás. É bacana ter esse frescor. É uma participação, mas é bom estar no set.”

O seu personagem era um motoqueiro também, na vida real você pilota?

“Não (piloto moto). Quando eu era mais jovem, eu inventei de pegar uma moto, eu não tinha nem carteira ainda, e eu me arrebentei todo. Nunca me atraiu moto. O Francisco tirou a carteira agora e tirou a de moto também e eu disse pra ele usar se precisar para um personagem, mas não inventa de comprar moto, porque aí é um pesadelo. Acho bonito, mas se tem um dublê pra pilotá-la é melhor.”

Assim como o padre Julião, seu personagem em Sol Nascente, você também gosta de rock?

“Eu curto rock and roll. Eu sou da geração que curtiu muito o rock nacional na década de 1980. Sinto muita falta. Aliás, hoje o mercado fonográfico é triste. Nada contra, as pessoas estão aí. Mas eu sinto que perdeu muito a característica da poesia, da provocação, de criar um pensamento crítico. Hoje em dia é nheco nheco, vulco vulco, faz um baita sucesso, todo mundo sabe a letra, mas a mim, particularmente, não acrescenta nada. Enfim.”

O tempo em que você passou atuando na Rede Record agregou à sua carreira?

“Sim, claro. Eu acho que o grande lance é você estar atento. Tudo que acontece na vida da gente é uma oportunidade. Ou é uma oportunidade de você aprender, ou de se fortalecer, ou é uma oportunidade de você falar assim: ‘não, isso eu nunca mais quero fazer na minha vida’. Agora para isso você tem que estar ligado, você tem que estar atento, você tem que saber o que você quer da sua vida. Então, foi ótimo, eu não tenho queixa nenhuma do processo, do artístico ali você fazendo. Mas aí uma coisa é você trabalhar numa estrutura que você tem tudo, que as pessoas respeitam sua carga horária, que as pessoas te tratam bem, te valorizam como pessoa e tem lugares que você vai e as pessoas estão cagando para você e te exploram mais do que deviam e você acaba aceitando porque você de alguma forma está envolvido dentro daquele regimento. Que nem o Brasil, o Brasil que a gente vê agora está bom, tá bacana, tá legal? Não, mas a gente vive aqui. Enfim.”

André RomanoENTREVISTA REALIZADA PELO JORNALISTA ANDRÉ ROMANO