Letícia Dornelles nega semelhanças entre “Coisas de Casal” e “Modern Family”


Em entrevista exclusiva, a autora Letícia Dornelles falou sobre os especiais de fim de ano “Coisas de Casal” e “A Nova Família Trapo”, que prepara para a Record. Ela também relembrou os trabalhos de sua carreira e comentou a produção de remakes e adaptações na TV brasileira.

Conhecida por trabalhos como “Por Amor” na Globo e “Amigas e Rivais” no SBT, Letícia escreveu as duas atrações inéditas para o canal do bispo Edir Macedo. Ela inclusive rebate qualquer semelhança com séries internacionais, como foi o caso de “Coisas de Casal” que teria sido inspirada em “Modern Family”. A informação de que seria semelhante foi passada pela atriz Antonia Fontenelle, que integra o elenco do especial, durante participação no “Domingo Legal”, do SBT, no domingo (3).

Já “A Nova Família Trapo”, ela garante que não tem nada igual a clássica versão original, estrelada por Ronald Golias e exibida pela Record, nos anos 1970. Segundo Letícia, o especial é uma homenagem original à antiga versão.


“A Nova Família Trapo”, previsto inicialmente para a noite de Natal, recebeu, agora, a missão de abrir os trabalhos no dia 1 de dezembro e “Coisas de Casal vai ao ar no dia 8. Ambos os programas podem ganhar lugar fixo na grade da Record, em 2014.

Confira a entrevista na íntegra:

NF: Letícia, como surgiu a oportunidade de escrever dois especiais para Record?
LD: Apresentei Coisas de Casal ao Vice Presidente Artístico, sr Marcelo Silva, no começo do ano. Ele leu e gostou. Em agosto, o diretor de dramaturgia, Anderson Souza, confirmou que o especial seria produzido. Pouco depois, fui convidada a escrever A Nova Família Trapo. Uma grata surpresa. Um momento profissional extremamente feliz.

NF: Antes desse novo projeto a que você estava se dedicando?
LD: Estou sempre escrevendo, estudando… É importante exercitar o ofício. E tenho meu filho de 3 anos, Patrick, que ocupa minha vida.

NF: Quem escolheu os especiais que você está trabalhando, a ideia partiu de você ou da Record?
LD: Coisas de Casal eu apresentei como proposta, e, para a Família Trapo, eu fui convidada. Coisas de Casal está sendo gravado em locações de São Paulo e Rio de Janeiro. E o piloto da Nova Família Trapo já foi gravado no Teatro do Colégio Notre Dame, dia 3 de Novembro.

NF: De onde vem a inspiração para escrever Coisas de Casal?
LD: É um seriado leve, que brinca com a troca dos papéis ditos tradicionais do homem e da mulher num casamento. Não há discurso feminista, nem machista. É uma visão divertida do que acontece com uma família quando a crise chega de forma devastadora. O homem aceita, numa boa, o fato de que o momento profissional da mulher é melhor do que o dele. Ela passa a sustentar sozinha a casa e ele cuida do lar e dos filhos. É uma realidade o fato de que algumas mulheres são mais bem sucedidas profissionalmente do que seus maridos. Seja porque eles não têm as mesmas oportunidades, ou porque, simplesmente, perderem o emprego, e se veem nas funções domésticas enquanto a mulher vai à luta. Já aconteceu com um primo meu uma situação bem parecida.

NF: Coisas de Casal tem alguma semelhança com Modern Family?
LD: Não acompanho Modern Family. Mas, pelo resumo que li na internet, não tem semelhança alguma de perfís, nem de roteiro, nem de trama. Coisas de Casal fala do momento profissional diferente de um casal. Ela é um sucesso e ele se vê desempregado. Decidem que ela sustenta a família, e ele vira “dono de casa”, cuida do lar e dos filhos. O que seria um momento pacífico acaba virando um caos com a interferência das sogras e dos amigos. As situações são leves e divertidas. Os atores estão muito bem em cena. E Edgard Miranda dá um tratamento e direção sofisticados às imagens.

NF: A Nova Família Trapo não vai seguir a clássica versão original, por quê?
LD: Primeiro, porque os tempos são outros. A linguagem da Tv mudou. As exigências do público, da Tv, e do mercado publicitário também mudaram. Segundo, porque a ideia é fazer uma homenagem a um dos maiores clássicos da Tv brasileira, pioneiro das sitcoms nacionais. Fazer uma homenagem à própria história da Rede Record. Não temos o Golias. Seria bobagem algum ator tentar imitar o tipo inesquecível. Nós respeitamos essa memória afetiva que o público tem. O Bronco é do Golias. Não tem condição de fazer remake do personagem da vida de um humorista único. A proposta do especial fica bem clara já no título. É A NOVA FAMÍLIA TRAPO. Não é a antiga. Vamos acompanhar as trapalhadas de Quintino, Tia Gertrudes Tupinambá, dos irmãos Creizi e Reginaldo Tupinambá, da empregada Benigna, de Sharlene Sheeva – a Mulher Lasanha, do síndico Ananias, e do policial da Swat que participa do piloto. Os atores estão incríveis em cena. Uns leões. Atuam com muita garra, dinamismo, competência, talento e alegria. Se entregaram ao palco. O especial está uma verdadeira festa. A reação da plateia foi super gostosa. Os atores foram aplaudidos em cena aberta, várias vezes. Merecidamente. O público vai se divertir muito.

NF: Como é sua rotina de trabalho?
LD: Não tenho exatamente uma rotina. Quando tenho texto para escrever, me concentro, e escrevo. Fico inteiramente dedicada ao roteiro. Não tenho hora, momento, nem ritual. Sou muito objetiva no meu ofício. Não me censuro, nem bloqueio. Escrevo e envio. Se alguma correção tiver de ser feita, faço, sem problemas. A produção não pode parar. Gosto de entregar os roteiros com antecedência. O projeto caminha com mais tranquilidade, sem estresse. Não tenho frescuras. Sou fácil de lidar. E escrevo rápido. Graças a Deus, o texto flui.

NF: Fale um pouco sobre sua parceria com os diretores Ignácio Coqueiro e Edgard Miranda.
LD: Não gosto de comparar pessoas e estilos. Sempre se corre o risco de ser deselegante. Mas, nesse caso, só tenho elogios aos meus diretores. Ignácio e Edgard são completamente diferentes no estilo, no jeito de lidar com o texto, e na personalidade. São de escolas diferentes. Ambos talentosíssimos e excelentes parceiros. Conheci os dois no mesmo dia. De cara, adorei. Senti que os textos iam fluir super bem com a direção deles. Assim como os diretores, Coisas de Casal também é muito diferente da Nova Família Trapo. Coisas de Casal é gravada em locações, são várias cenas, há externas. Já a Família Trapo é outra linguagem. É como uma peça de Teatro, gravada num Teatro, direto, e com plateia. Edgard dá a Coisas de Casal um tratamento sofisticado de seriado americano. Ignácio dá à Família Trapo uma agilidade absurda. Os atores se entregam em cena. Está alegre, pra cima, dinâmico. Ignácio é um doido espetacular. Ignácio é um show à parte. Edgard é mais contido. Os dois são sensacionais.

NF: Você acredita que os novos atores de Família Trapo serão tão engraçados como Golias, Otello Zeloni e Renata Fronzi?
LD: Os atores estão super bem escalados. Estão engraçados, dinâmicos, se entregaram ao texto. Não tenho como comparar com os atores da antiga Família Trapo porque as idades, os perfís, e a trama são diferentes. A história é atual. Seria como comparar Mickey com Super Homem. Mas garanto que Rafael Cortez está brilhando como Quintino. Está seguro em cena, divertido, rápido, com reações pontuais, trazendo uma luz incrível ao Quintino, que é um sujeito vaidoso e atrapalhado. A Patricya Travassos é um luxo em cena. Faz a deliciosa interesseira Tia Gertrudes Tupinambá, a “tia Cobra”. O embate entre ela e Quintino é hilário. Patricya colocou uma pompa, um tom de voz, um estilo charmoso e poderoso na personagem. É uma honra tê-la no elenco. Profissional de primeiro time. Raul Gazolla é a alegria em pessoa nesse trabalho. Faz o síndico intrometido Ananias, que, do nada, invade o apartamento, e passa a se meter em tudo. Raul deu um tom de comédia italiana ao Ananias. Kátia Moraes fez da Benigna dos Prazeres uma empregada surtada, à beira de um ataque de nervos. Ela é cúmplice e, ao mesmo tempo, rival do Quintino. Está super divertida. Às vezes, acho que ela vai furar o palco com suas passadas firmes e atrevidas. A Cacau Melo tem uma das cenas mais difíceis. O solo da Creizi Tupinambá é um dos pontos altos do piloto. Precisa de muita concentração e de abrir mão da vaidade. Tem que ter coragem pra fazer a Creizi em cena. O público ri muito enquanto ela atua. Não sei como a atriz conseguiu chegar ao fim da cena, manter a concentração. Está de chorar de rir. Foi aplaudida em cena aberta. Adorei a garra que ela deu à Creizi, que é uma atriz séria, em meio a tantos surtados e vigaristas. Daniel Erthal faz o Reginaldo Tupinambá, um vigarista que é sustentado pela mãe. O filho preferido. Um papel diferente do que os fãs do ator estão acostumados. Está firme e arranca boas gargalhadas. O Paulo Cesar Grande faz uma participação pra lá de especial como um policial da Swat que coloca ordem na bagunça. A entrada dele foi um sucesso. O público riu muito com o estardalhaço.

NF: Quem escolheu o elenco?
LD: A direção da emissora, o departamento de elenco, Ignácio Coqueiro e eu.

NF: Os especiais podem se tornar programas fixos na grade da Record?
LD: Nós trabalhamos com afinco pra que isso aconteça. É o nosso objetivo: um lugar na grade valorizada da Record. Estamos prontos pra guerra.

NF: Como foi a gravação da Nova Família Trapo no último domingo (3)?
LD: Sensacional. Os atores entraram em cena com garra, entrega, alegria, e muito amor. Foram poucos dias de ensaio pra colocar um espetáculo em cena. Os ensaios e a gravação são diferentes de um especial feito cena a cena, em estúdio. É como Teatro. Com plateia. Depois de levantar voo, o avião tem de segurar a rota, e chegar ao destino. Não pode mais voltar ao aeroporto. Posso garantir que os atores fizeram um voo excelente. O público reagiu muito bem. Tiveram uma acolhida calorosa, com muitas gargalhadas. Missão dada, missão cumprida.

NF: De fato A Nova Família Trapo tem semelhanças com Sai de Baixo?
LD: Se há alguma semelhança, pode ter certeza de que o outro programa é que se utilizou da fórmula da Família Trapo. Quem nasceu antes? A Família Trapo. Nós não fazemos a mesma história, mas o formato é antigo.

NF: Falando um pouco sobre sua carreira, você já passou pela Globo, SBT e Record, quais as diferença entre o trabalho em uma e outra emissora?
LD: Comecei minha carreira como repórter de video na Globo. Depois, fui para a dramaturgia. Foram mais de dez anos na emissora. Tive ótimos professores e projetos. Mas a valorização profissional e as melhores oportunidades, eu tive no SBT e na Record.

NF: Você prefere escrever novela, série, ou roteirizar programa de auditório?
LD: Novelas e séries são meus xodós. Adoro dramaturgia.

NF: Tem alguma novela em mente para escrever?
LD: Tenho sinopses rascunhadas… Todo escritor tem…

NF: Qual foi o trabalho que mais marcou sua carreira?
LD: Minha estreia em novelas aconteceu em Por Amor, do Manoel Carlos. Sempre serei grata pela oportunidade e pelo aprendizado que tive com ele. Essa novela faz parte da minha vida. No SBT, escrevi sozinha o remake de Amigas e Rivais. Uma experiência incrível. E, na Record, agora estou apaixonada pela Família Trapo e por Coisas de Casal. São os três melhores momentos da minha carreira, com certeza.

NF: Você prefere escrever uma história original e inédita ou adaptar um folhetim mexicano ou revitalizar um programa antigo?
LD: O que importa é a história ser boa e ter impacto junto ao público. Tanto faz ser remake ou história original. Quero dar bons resultados pra emissora. Quero que a equipe acredite e embarque comigo na trama. E trabalhar com alegria, amor, e objetividade. Amo minha profissão.

NF: Gostaria de voltar para a Globo? Por que vc saiu de lá?
LD: Sou profissional. Não fecho portas. Abro. Meu momento atual é Família Trapo, Coisas de Casal, e Record. Vamos ver o que o futuro me reserva. Espero que os pilotos entrem na grade e essa parceria agradável continue por muitos anos. Globo não é meu objetivo.

NF: Você acredita que as demais emissoras conseguirão chegar ao nível da Globo, em dramaturgia?
LD: Claro que sim. A Record tem excelentes séries no ar, novelas de qualidade internacional.

NF: Qual autor você mais admira?
LD: Gosto da fase erudita da Maria Adelaide Amaral, com minisséries e adaptações da literatura. É o melhor texto feminino da TV. Gosto de Ivani Ribeiro. De Cassiano Gabus Mendes. De João Emanuel Carneiro. De Manoel Carlos. De Gilberto Braga.

NF: Qual a sua opinião sobre a prioridade que algumas emissoras dão a adaptação de textos estrangeiros, em detrimento da criatividade nacional?
LD: Não posso interferir na grade de emissora alguma. Mas, como profissional, sinto. O mercado de trabalho é pequeno. São poucas emissoras. Precisamos de investimento, não de retração.

NF: O que aconteceu com o projeto de programa que você estava trabalhando no SBT?
LD: Escrevi um piloto, gravamos, mas não colocaram no ar. Estava muito legal. Um programa jovem, com auditório, comediantes.