Beatriz Segall na minissérie A, E, I, O... Urca (Divulgação)
Beatriz Segall na minissérie A, E, I, O... Urca (Divulgação)

Morreu em São Paulo hoje, aos 92 anos, em decorrência de problemas respiratórios, a atriz Beatriz Segall. Eternizada como a vilã Odete Roitman da novela Vale Tudo – que está no ar no Canal Viva pela segunda vez -, Beatriz havia passado alguns dias internada no Hospital Albert Einstein em agosto.

O teatro foi sempre uma grande paixão de Beatriz Segall, que atuou desde os anos 1950. Entre os textos cujas montagens contaram com Beatriz no elenco, estão Pippin; Emily; Três Mulheres Altas; e À Margem da Vida. A atriz também marcou presença no cinema, em filmes como Desmundo, de Alain Fresnot, e O Cortiço, de Francisco Ramalho Jr.

Os 92 anos de Beatriz Segall, a eterna Odete Roitman de Vale Tudo

Vamos recordar algumas personagens marcantes de Beatriz Segall na teledramaturgia brasileira:

Odete Roitman

Sem dúvida, o momento de maior destaque da carreira da atriz na televisão foi em Vale Tudo (1988). Um dos grandes sucessos da nossa TV, a novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères apresentou uma vilã odiosa. Odete Roitman era arrogante, mesquinha, opressora e detestava o Brasil e seu povo. São incontáveis as pérolas da personagem, que disse despautérios como “Essa é uma mistura de raças que não deu certo” (sobre o Brasil); “Detesto brasileiros de outros estados passando na porta da minha suíte falando português… Essa gente viaja até com criança às vezes”; e “Não acredito que os índices de violência possam ser justificados pela situação econômica deste país. Essa pobreza sempre existiu”. Entre muitas outras frases que expuseram seu desprezo pelos menos favorecidos, com toda a certeza essas foram bastante chocantes.

A menos de duas semanas do final da novela, Odete Roitman foi assassinada. A identidade do autor do crime foi mantida em segredo até o último capítulo. Todo o Brasil se perguntou “quem matou Odete Roitman?”. Coube a Leila (Cássia Kiss) a autoria do assassinato, cometido por acidente – ela acreditava ter atirado em Maria de Fátima (Glória Pires). Se com Beatriz viva já “valia a pena ver de novo” a novela, agora que a atriz faleceu a oportunidade ficou ainda mais imperdível.

Dancin’ Days: um dos maiores sucessos da Globo completa 40 anos

Celina Souza Prado Cardoso

Em Dancin’ Days (1978/79), também de Gilberto Braga, Beatriz voltou à TV após 10 anos afastada do veículo. A novela marcou também sua estreia na Rede Globo. Sua personagem era Celina, esposa do respeitado advogado Franklin (Cláudio Corrêa e Castro). O casamento dos dois não era feliz e vivia de aparências. A cena em que Celina bebe um pouco na boate e põe pra fora verdades guardadas por décadas marca sua saída da novela. Logo em seguida ela morre.

Lourdes Mesquita

Água Viva (1980), outra de Gilberto Braga, não seria a mesma novela sem Lourdes Mesquita. Rica e festejada no passado, em sua maturidade ela vive de organizar festas com a filha mais velha, Márcia (Natália do Valle). O grande desejo de Lourdes, sem dúvida, é casar o outro filho, Marcos (Fábio Jr.), com Sandra (Glória Pires), única herdeira do famoso cirurgião Miguel Fragonard (Raul Cortez). No entanto, o rapaz cai de amores pela pobretona Janete (Lucélia Santos), o que granjeia à moça o ódio da megera. E Lourdes ainda tumultuava o casamento de Márcia com Edyr (Cláudio Cavalcanti), professor de poucos rendimentos. Anteriormente, Beatriz Segall interpretou Norah, mãe de Carina (Elizabeth Savalla), em Pai Herói (1979), de Janete Clair.

Miss Penélope Brown

Beatriz Segall e Mário Lago em Barriga de Aluguel (Divulgação/TV Globo)
Beatriz Segall e Mário Lago em Barriga de Aluguel (Divulgação/TV Globo)

De olho no futuro sempre, a geneticista Penélope Brown fazia o contraponto ao tradicionalista Dr. Molina (Mário Lago) na trama de Barriga de Aluguel (1990/91). A autora Glória Perez apresentou aqui ao público mais do que dois médicos idosos às turras. O que se viu foi um casal da terceira idade, cujo amor não foi desfavorecido pelas diferenças ideológicas e morais. Os dois personagens foram resgatados, aliás, numa participação especial na primeira fase de O Clone (2001/02).

Clotilde Jordão

Falida, sim, mas sem perder a pose. Embora não fosse tão perua nem tão deslumbrada quanto a irmã Elisinha (Ariclê Perez), Clô fazia parte do núcleo quebrado de Anjo Mau (1997/98). Maria Adelaide Amaral compôs uma nova história a partir do original de Cassiano Gabus Mendes, de 1976. O núcleo dos Jordão Ferraz não existia e foi criado pela dramaturga. Paixão do passado de Eduardo Medeiros (José Lewgoy), Clô guardava um segredo. Ela na verdade era mãe de Freddy (Jackson Antunes), que acreditava ser irmão dela e de Elisinha. O rapaz era fruto de um romance com Manoel (Nelson Xavier).

Outros momentos da carreira de Beatriz Segall na TV

Em contraste com as famosas vilãs que a consagraram junto ao público de novelas, Beatriz Segall também viveu mulheres boas – e pobres, quem diria. Laura era mãe de Raquel (Irene Ravache), a “Helena” de Sol de Verão (1982/83), de Manoel Carlos. Na Band fez duas novelas entre 1981 e 1982. Em Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro e Jorge Andrade, na qual viveu Iracema, humilde costureira. Ao passo que em Ninho da Serpente, de Andrade, no papel de Noêmia, filha mais velha da aristocrata Guilhermina Taques Penteado (Cleyde Yaconis). A Condessa falida de A, E, I, O… Urca (1990), minissérie de Doc Comparato, Antonio Calmon e Carlos Manga, também foge à “regra” das malvadas.

Ainda que seja por conta de Odete Roitman, em que pese sua extensa carreira nos palcos, Beatriz Segall não será esquecida. Por certo, as muitas décadas dedicadas à arte de interpretar inscreveram seu nome no rol dos grandes talentos do País. Ficam a gratidão e a saudade do público.

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