Renata Sorrah vai se dedicar ao teatro em 2017
Renata Sorrah (Divulgação)

Quando se fala em números de audiência, o gênero telenovela coleciona grandes êxitos nesses quase 68 anos de TV no Brasil (a serem completados em setembro) e 53 de Rede Globo, comemorados em abril. É histórica a marca alcançada pelo capítulo 152 de Selva de Pedra, de Janete Clair, em outubro de 1972, quando 100 por cento dos televisores ligados na praça do Rio de Janeiro sintonizavam as cenas em que Simone (Regina Duarte) era desmascarada no uso da falsa identidade de Rosana, atitude que tomara para se reaproximar do marido Cristiano (Francisco Cuoco), que ela acreditava ter querido matá-la.

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Mas ao se tratar de números de audiência é bom esclarecer algumas coisas. A primeira delas é que o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) não mensura os telespectadores dos programas em todo o País ao mesmo tempo nem o tempo todo; algumas praças, de população maior (e, consequentemente, maior apelo publicitário), foram escolhidas pelo órgão para colher seus apontamentos. Outra coisa: no decorrer dos anos, os “pontos” de audiência representaram quantidades diferentes de televisores sintonizados nos programas, o que leva pontuações diferentes a representarem quantidades semelhantes de público, a depender dos períodos analisados.

Ainda, é comum que do final da década de 1970 para meados da década de 1980 haja números muito expressivos, porque devido a uma série de fatores econômicos e comerciais o número de televisores aumentou muito no decorrer dos anos, também pela força do veículo televisão, e por vezes novelas não tão lembradas hoje tiveram mais audiência do que grandes sucessos que marcaram época e que, por isso mesmo, dão a impressão de que foram muito mais vistos. Note-se também que nos anos 1970, por exemplo, os números eram divulgados a partir de um modo diferente de análise do Ibope, que era de consulta no dia e hora em que se desejava saber a informação, e não com aparelhos específicos que atestam os canais sintonizados pelos televisores e a que horas.
Dito isso, vamos às novelas apontadas como as mais vistas da teledramaturgia global desde os anos 1970 – quando a emissora se consolidou como líder –, por década e horário.

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Década de 1970

18h: Dona Xepa
Escrita por Gilberto Braga a partir do texto teatral de Pedro Bloch, Dona Xepa marcou época como a primeira novela de temática urbana e atual do horário, que na época exibia em geral versões de clássicos da nossa literatura. Carlota (Yara Cortes) tinha o apelido de Xepa devido ao modo como ganhava a vida, trabalhando como feirante. Criou os filhos Rosália (Nívea Maria) e Edison (Reynaldo Gonzaga) sozinha ao ser abandonada pelo marido, e eles sentiam vergonha dela por seu jeitão despachado, sem classe nem instrução e de poucos modos. O sucesso foi tão grande que credenciou Gilberto a entrar para o seleto rol dos autores das 20h, horário no qual escreveria Dancin’ Days no ano seguinte. A obra de Bloch originou outras duas novelas, que não fizeram o sucesso desta: Lua Cheia de Amor (Globo, 1990/91), com Marília Pêra, e Dona Xepa (Record, 2013), com Ângela Leal. Outro grande sucesso da época no horário, Escrava Isaura (1976/77), também de Gilberto Braga, alcançou excelente audiência, mas no saldo geral Dona Xepa sai na frente.

19h: Locomotivas
Escrita por Cassiano Gabus Mendes, Locomotivas foi exibida entre março e setembro de 1977, com direção de Régis Cardoso. Primeira novela das 19h da Globo gravada totalmente em cores, atingiu médias de 75% da audiência carioca e 57% da paulista – numa praça em que vivenciava a maior concorrência com a Tupi, que apresentava no mesmo horário Éramos Seis. No instituto de beleza da ex-vedete Kiki Blanche (Eva Todor) se desenvolvia um drama familiar a partir da disputa de Fábio (Walmor Chagas) por duas filhas de Kiki: Milena (Aracy Balabanian) e Fernanda (Lucélia Santos), esta última adotiva. Só que Milena é mãe de Fernanda, e abdica do amor de Fábio em prol da filha-irmã.

20h: Pai Herói
Janete Clair era uma criadora inesgotável de histórias que cativaram o público, a exemplo de Irmãos Coragem (1970/71), Selva de Pedra (1972/73) e O Astro (1977/78), entre muitas outras. Em Pai Herói, inspirada em sua radionovela Um Estranho na Terra de Ninguém, o jovem André Cajarana (Tony Ramos) sai do interior de Minas Gerais após a morte do avô paterno, em busca de sua mãe, Gilda (Maria Fernanda), e do esclarecimento da verdade em torno da figura do pai, que ele descobre ter sido um bandido perigoso e temido quando chega à cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Espezinhado pela família da mãe, que é casada com o inescrupuloso Bruno Baldaracci (Paulo Autran), André encontra apoio e amor na batalhadora Ana Preta (Glória Menezes), dona de uma gafieira e ex-amante de Bruno. Mas ele se apaixona de verdade por Carina (Elizabeth Savalla), jovem rica e infeliz, casada com o primo mau-caráter César (Carlos Zara). Dirigida por Gonzaga Blota e Roberto Talma e embalada pela canção “Pai”, composta e interpretada por Fábio Jr., Pai Herói chegou aos 80 pontos de audiência entre janeiro e agosto de 1979, com média geral de 61, e no capítulo final beirou os 90. Ao ser reprisada – pela primeira vez em quase 40 anos – pelo Viva em 2016/17, foi consagrada como a terceira novela mais vista do horário (a faixa mais nobre, das 23h30).

22h: Gabriela
A adaptação de Walter George Durst para o romance de Jorge Amado, Gabriela, Cravo e Canela, dirigida por Walter Avancini, marcou a comemoração dos 10 anos da Rede Globo em 1975 e tornou-se a maior audiência do núcleo das 22h, que persistiu apenas na década de 1970. A história passada em Ilhéus, importante centro do cultivo de cacau, com o romance da retirante Gabriela (Sônia Braga) e do comerciante Nacib (Armando Bogus) em meio às disputas dos coronéis liderados por Ramiro Bastos (Paulo Gracindo), atingiu índices superiores aos 55% de audiência, valendo-se também de um caminho sedimentado por êxitos assinados por Dias Gomes nos anos anteriores – notadamente Bandeira 2 (1971/72) e O Bem-amado (1973), que também tiveram pelo menos a metade dos telespectadores no horário. As reprises de Gabriela, uma no mesmo horário em 1979 e outra, no Vale a Pena Ver de Novo, em 1988/89, também tiveram boa audiência.

Década de 1980

18h: A Gata Comeu
Com índices médios de 64% de cariocas e 56% de paulistas, a novela de Ivani Ribeiro dirigida por Herval Rossano, remake de A Barba Azul, que a autora escrevera 11 anos antes para a Tupi, consagrou-se como a novela das 18h mais vista dos anos 1980 e uma das maiores audiências do horário em todos os tempos. Leve e divertida, a história do tumultuado romance da mimada Jô Penteado (Christiane Torloni) com o viúvo professor Fábio (Nuno Leal Maia), que tem início quando eles passam semanas perdidos numa ilha junto dos companheiros da excursão que fariam a Angra dos Reis, e têm todos por isso suas vidas entrelaçadas a partir dali, conquistou crianças e adultos e sempre faz sucesso quando retorna ao vídeo; já teve três reprises, duas na Globo e uma no Viva.

19h: Vereda Tropical
Com 70% de audiência média geral no Rio de Janeiro e 61% em São Paulo, cidade onde sua história se passava, esta novela de Silvio de Abreu e Carlos Lombardi foi a mais vista do horário na década de 1980. Com pouca diferença nos números constam Um Sonho a Mais (1985), de Daniel Más e Lauro César Muniz, Ti-ti-ti (1985/86), de Cassiano Gabus Mendes, e Guerra dos Sexos (1983), outra de Silvio, que teve Lombardi como seu colaborador. A história da luta da operária Silvana (Lucélia Santos) contra seu sogro e patrão Oliva (Walmor Chagas) pela guarda do menino Zeca (Jonas Torres) e o triângulo amoroso formado por Silvana, o jogador de futebol Luca (Mário Gomes) e uma das filhas de Oliva, Verônica (Maria Zilda Bethlem), marcou época.

20h: Roque Santeiro
Considerando a trajetória das novelas do início ao fim, dentro das conjunturas da emissora, da televisão e da época, ainda hoje Roque Santeiro, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva com a colaboração de Marcílio Moraes e Joaquim Assis e dirigida por Paulo Ubiratan, Gonzaga Blota, Marcos Paulo e Jayme Monjardim, pode ser considerada o maior sucesso da década de 1980 e da história da nossa teledramaturgia. Seus 209 capítulos, exibidos entre junho de 1985 e fevereiro de 1986, após 10 anos com a exibição da história impedida pela Censura, alcançaram uma média geral de 78% da audiência no Rio de Janeiro e 74% em São Paulo, e estiveram perto dos 100 pontos no capítulo final. A cidade de Asa Branca, onde a história se passava, representava um microcosmo do Brasil, com os jogos de interesses, mentiras, trapaças e atos hipócritas cometidos pelos habitantes que viviam em torno do mito de Roque Santeiro (José Wilker), filho ilustre da terra que supostamente havia morrido defendendo a igreja de um bando de ladrões. O rico mercado que se ergueu em torno da santidade de Roque, que nem morto estava, tinha como mentor o fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte), e sua intenção inicial não teve nada de religiosa – quis apenas encobrir uma amante sua, Porcina (Regina Duarte). A novela até aqui já foi reprisada duas vezes pela Globo, uma pelo Viva e inaugurou os lançamentos de produções do gênero em DVD pela Globo Marcas, em 2010, num box com 16 discos.

Década de 1990

18h: Mulheres de Areia
Escrita originalmente em 1973 para a Rede Tupi por Ivani Ribeiro, Mulheres de Areia alcançou uma marca histórica para o horário das 18h da Globo em sua segunda versão, à qual Ivani acrescentou elementos de outra novela sua, O Espantalho (1977). A história das irmãs gêmeas Ruth e Raquel (Glória Pires) fechou com a média geral de 50 pontos de audiência, tendo passado diversas vezes disso, nos capítulos-chave da novela. O sucesso na época foi tanto que, para melhorar a audiência que o Jornal Nacional recebia da atração das 19h, O Mapa da Mina, de Cassiano Gabus Mendes, a Globo cogitou algo totalmente incomum: trocar uma novela de horário, invertendo as duas e favorecendo a grade noturna com Mulheres de Areia às 19h.

19h: A Viagem
Também é de Ivani Ribeiro o recorde de audiência na faixa das 19h da emissora na década: a trama romântica e espiritualista de A Viagem, liderada por Christiane Torloni (Dinah), Antonio Fagundes (Otávio), Cláudio Cavalcanti (Alberto), Lucinha Lins (Estela), Maurício Mattar (Téo), Andréa Beltrão (Lisa) e Guilherme Fontes (Alexandre) teve média geral de 52 pontos de audiência de abril a outubro de 1994, e não deixou a peteca cair nem quando enfrentou as oscilações da grade motivadas pela Copa do Mundo de Futebol sediada nos Estados Unidos, que a fez ir ao ar tanto antes das 19h quanto quase às 21h.

20h: Rainha da Sucata e Renascer
Na década de 1990, o horário das 20h da Globo apresenta um empate técnico entre Rainha da Sucata (1990), de Silvio de Abreu, dirigida por Jorge Fernando, e Renascer (1993), de Benedito Ruy Barbosa, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Com diferença de poucos décimos, é possível arredondar a média de audiência de ambas para 61 pontos, com ligeira vantagem da história da sucateira Maria do Carmo (Regina Duarte) em relação aos conflitos da família do fazendeiro produtor de cacau José Inocêncio (Antonio Fagundes).

Década de 2000

18h: Alma Gêmea
Depois dos sucessos de O Cravo e a Rosa (2000/01) e Chocolate Com Pimenta (2003/04), Walcyr Carrasco conquistou grande audiência com a história protagonizada pela índia Serena (Priscila Fantin) o maior sucesso do horário das 18h na década, com direção de Jorge Fernando – média geral de 39 pontos, chegando à casa dos 50 em determinados capítulos. Serena era a reencarnação de Luna (Liliana Castro), a bela esposa de Rafael (Eduardo Moscovis) que morre tragicamente num assalto orquestrado por sua prima invejosa, a não menos bela Cristina (Flávia Alessandra).

19h: Da Cor do Pecado
A estreia de João Emanuel Carneiro como autor titular de novelas, em 2004, alcançou média geral de 45 pontos de audiência. Dirigida por Denise Saraceni, Da Cor do Pecado tratava de racismo, amor e ambição. O romance entre Paco (Reynaldo Gianecchini) e Preta (Taís Araújo) gera um filho, Raí (Sérgio Malheiros), que acaba estabelecendo uma bonita relação de amor e amizade com o avô paterno racista e mesquinho, Afonso (Lima Duarte). A fortuna de Afonso, à qual Raí terá direito um dia, é alvo da cobiça de Bárbara (Giovanna Antonelli), a noiva dissimulada de Paco que mente dizendo que ele é pai de seu filho Otávio (Felipe Latgé) – na verdade filho de seu amante, Caíque (Tuca Andrada) –, e de Tony (Guilherme Weber), obcecado por Bárbara e por seu desejo de destruir Afonso. A Globo a reprisou em 2007 e, numa nova e desnecessária oportunidade, em 2012, no Vale a Pena Ver de Novo.

20h: Senhora do Destino
Escrita por Aguinaldo Silva e dirigida por Wolf Maya, e recentemente reprisada no Vale a Pena Ver de Novo pela segunda vez com índices em torno dos 17 pontos de média geral, a saga da nordestina Maria do Carmo (Susana Vieira) em sua busca para manter a família unida e reencontrar a filha caçula, Lindalva, que fora sequestrada em 1968 por Nazaré (Adriana Esteves) e criada com o nome de Isabel (Carolina Dieckmann) teve média geral de 50,4 pontos de audiência, marca ainda hoje mantida. Como de lá pra cá houve mudanças nos referenciais de cálculo do Ibope, e cada ponto represente 65 mil telespectadores – contra os 49,5 mil da época –, hoje Senhora do Destino teria cerca de 38 pontos de média geral.

Década de 2010

18h: Eta Mundo Bom!
Com 27 pontos de média geral de audiência e passando dos 31 em seu capítulo final, a novela de Walcyr Carrasco com direção de Jorge Fernando é por enquanto o maior sucesso de audiência da faixa global das 18h nos anos 2010. Inspirada num filme de Mazzaropi, a história trazia como protagonista Candinho (Sérgio Guizé), jovem ingênuo e humilde que desconhecia ser filho de uma mulher muito rica, Anastácia (Eliane Giardini), bem como sequer imaginava que sua prima ambiciosa, Sandra (Flávia Alessandra), desejava se apossar de sua fortuna. Logo deve ser reprisada, ainda mais com o prestígio atual do autor graças a O Outro Lado do Paraíso.

19h: Cheias de Charme
Com média geral de 30 pontos de audiência, a novela de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira exibida em 2012 foi o maior sucesso do horário global das 19h na década até agora. Pega-pega (2017), de Cláudia Souto, chegou perto: 28,8. A divertida história das empregadas Maria da Penha (Taís Araújo), Maria do Rosário (Leandra Leal) e Maria Aparecida (Isabelle Drummond), que acabam se transformando em estrelas da música como “Empreguetes”, foi mesmo um grande sucesso popular e teve até a promessa de originar um filme, que nesses 6 anos não veio à luz ainda. No ano passado foi reapresentada no Vale a Pena Ver de Novo, também com bons números.

20h: Fina Estampa
Pois é, não foi Avenida Brasil. Com média geral de 39,2 pontos, sua antecessora Fina Estampa é até agora a novela mais vista do horário nesta década. Escrita por Aguinaldo Silva e dirigida por Wolf Maya, a história apresentava como protagonista Griselda da Silva Pereira, ou Pereirão (Lília Cabral), que depois de ser abandonada pelo marido Pereirinha (José Mayer) começou a trabalhar como “marido de aluguel” fazendo serviços de eletricista, encanador e outros que tais. O chef de cozinha René (Dalton Vigh) acaba se apaixonando por ela, que é o total inverso de sua esposa fútil e histérica, Tereza Cristina (Christiane Torloni).

23h: Os Dias Eram Assim
Uma história de amor dificultada pelas circunstâncias do nosso passado recente aliadas ao mau-caratismo de dois vilões impiedosos, Os Dias Eram Assim, de Ângela Chaves e Alessandra Poggi, alcançou com seus 88 capítulos exibidos em 2017 a média geral de 21 pontos em São Paulo e 22 no Rio de Janeiro, um índice bom para o horário – em alguns dias passou dos 28 – e que fez dela o maior sucesso das 23h nesta década até agora, embora seus índices sejam próximos aos de Verdades Secretas (2015), Gabriela (2012) e O Astro (2011), que inaugurou o ciclo, as quais ultrapassou por pouco. Os capítulos de segunda-feira e os de quinta, que após algumas semanas passaram a também entrar no ar “colados” na novela das 21h, ajudaram nesses resultados do romance de Renato (Renato Góes) e Alice (Sophie Charlotte). Também é válido lembrar que desde quando o horário foi implantado com O Astro, houve mudanças no esquema de apresentação das novelas das 23h, hoje chamadas de superséries, como os dias de exibição dos capítulos, o que torna a comparação de audiência de uma produção com a outra injusta em relação aos outros horários, que têm ciclos contínuos de exibição e constância de horário.

Números relativos às décadas de 1970 e 1980 foram quase todos retirados de dados apurados pelos pesquisadores Renato Ortiz, Silvia Helena Simões Borelli e José Mário Ortiz Ramos, em seu livro Telenovela – História e Produção (Brasiliense, 2. ed., 1991). Também é importante lembrar que por vezes a diferença de uma novela para outra é bem pequena, e são décimos que separam os títulos num ranking, tarefa difícil dadas as modificações de critérios e as variações de praça para praça.

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