O diretor Jorge Fernando na coletiva de Verão 90
Jorge Fernando na coletiva de Verão 90: diretor faleceu neste domingo aos 64 anos (Divulgação/ TV Globo)

No final da noite deste domingo, 27 de outubro, uma notícia apanhou a todos de surpresa. O ator e diretor Jorge Fernando faleceu aos 64 anos de idade no Rio de Janeiro, após sofrer um aneurisma e uma parada cardíaca. Seu último trabalho foi ao ar neste ano: a novela Verão 90, de grande sucesso às 19h, horário no qual Jorge fez a maioria de seus mais de 30 trabalhos na televisão, todos na TV Globo.

Os primeiros anos de Jorge Fernando na TV

Jorge Fernando estreou na televisão em 1978, como um dos protagonistas da série Ciranda, Cirandinha, um projeto do diretor Daniel Filho. Ao lado dele, Lucélia Santos, Fábio Jr. e Denise Bandeira lideravam as histórias sobre a juventude dos anos 1970, que cresceu sob ditadura e restrição da liberdade. No ano seguinte Jorge Fernando participou de sua primeira novela: em Pai Herói, de Janete Clair, ele foi Cirilo, mimado filho do mafioso Bruno Baldaracci (Paulo Autran). Ainda em 1979 ele integrou o elenco de As Gralhas, unitário do ciclo Aplauso, escrito por Bráulio Pedroso e dirigido por Marcos Paulo, baseado na obra de Franz Kafka. Em 1980, seu papel em Água Viva, novela de Gilberto Braga, foi o de Jader, irmão da batalhadora Suely (Ângela Leal).

Também em 1980 foi que Jorge Fernando iniciou-se como assistente de direção de Roberto Talma. Assistiu-o em duas novelas, Coração Alado (1980/81) e Baila Comigo (1981), e assumiu sua primeira direção como titular na tumultuada O Amor É Nosso!, também de 1981.

As primeiras direções de Jorge Fernando

Jogo da Vida (1981/82) foi a primeira novela que Jorge Fernando efetivamente dirigiu do início ao fim, tendo ao lado na tarefa Guel Arraes e Roberto Talma, líder do trio. Ademais, foi também o início de uma frutífera parceria com Silvio de Abreu, autor do qual dirigiu outras oito novelas. No início um drama centrado numa mulher de meia-idade, Jordana (Glória Menezes), cujo marido Silas (Paulo Goulart) abandona para ficar com Carla (Maitê Proença), jovem que poderia ser sua filha, Jogo da Vida vai se transformando em seu decorrer em virtude da caça aos cupidos que contêm a herança da Tia Mena (Norma Geraldy). De modo que termina como uma grande comédia, com todo o elenco fazendo loucuras para ficar com o dinheiro.

Esse “enlouquecimento” gradual da novela, sem perda de sucesso, propiciou a Silvio sugerir voos maiores no sentido da comédia em seu trabalho seguinte. Que não foi outro senão Guerra dos Sexos (1983), ainda hoje citada como exemplo de projeto bem-sucedido e exemplar do horário das 19h. Uma comédia “rasgada”, com direito a pastelão envolvendo ícones da dramaturgia como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Tarcísio Meira e Glória Menezes, a novela era diferente do que o espectador estava habituado a ver. Talvez por isso mesmo, entre outros motivos, tenha feito muito sucesso, um dos maiores da história da emissora. O diretor, uma vez mais, foi Jorge Fernando, em dupla com Guel Arraes.

Com efeito, não podemos ignorar as propostas de Bráulio Pedroso (Feijão Maravilha, 1979) e Carlos Eduardo Novaes (Chega Mais, 1980) no mesmo horário, com histórias de humor forte e menos convencionais do que o formato telenovela geralmente abarcava. Mas pode-se dizer que a comédia como tônica central e forte dos enredos do horário foi institucionalizada com a dupla Silvio-Jorge.

Vereda Tropical (1984/85), Cambalacho (1986), Brega & Chique (1987) e Que Rei Sou Eu? (1989), todas novelas das 19h da TV Globo, fortificaram a proposta e deram uma nova cara ao horário, que com variações se mantém até os dias atuais. Em meio a essa sequência de novelas, Jorge Fernando ainda encontrou tempo para adaptar e dirigir o texto teatral As Mil e Uma Encarnações de Pompeu Loredo, programa de estreia do ciclo Aventura Musical, exibido na faixa Sexta Super. Ele assinou o texto, a saber, com Mauro Rasi e Vicente Pereira, autores do texto original para os palcos. Além de atuar como ator em Bebê a Bordo (1988/89).

Nos anos 1990, Jorge Fernando mostra que pode ir além da comédia com o mesmo talento

Em 1990, Silvio de Abreu e Jorge Fernando foram “promovidos” da faixa das 19h para a das 20h na Globo. E seu primeiro trabalho deveria ser especial, para celebrar os 25 anos da emissora. Rainha da Sucata reuniu um elenco estelar como poucas vezes se viu, encabeçado por Regina Duarte, Glória Menezes, Tony Ramos e Daniel Filho e com participações especialíssimas de Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Laura Cardoso e outros “monstros sagrados”. Ambientada em São Paulo, a história tratava da mudança de mãos do dinheiro naquele momento, com os quatrocentões falindo após anos de dissipações e economia instável e os novos-ricos ascendendo. Os Figueroa, família de Betinho (Paulo Gracindo) e Laurinha (Glória Menezes), representavam os primeiros, e Maria do Carmo (Regina Duarte) simbolizava o segundo grupo.

De volta à faixa das 19h, Jorge Fernando marcou época com Vamp, de Antonio Calmon. A geração dos anos 1990 guarda com carinho na lembrança a história dos vampiros que foram tomando conta da pequena e pacata Armação dos Anjos, litoral fluminense. Especialmente a família do Capitão Jonas Rocha (Reginaldo Faria) foi bastante afetada em virtude de sua ligação com a roqueira Natasha (Cláudia Ohana) e o vampiro Vladimir Polanski, o Vlad (Ney Latorraca), obcecado por ela.

Crítica política na novela das 19h foi surpreendida pela vida real

Também às 19h Jorge Fernando dirigiu Deus nos Acuda (1992/93), uma de suas parcerias com Silvio de Abreu. A partir da trambiqueira Maria Escandalosa (Cláudia Raia) e da responsável pelo Brasil no Céu, Celestina (Dercy Gonçalves), o autor traçou uma comédia crítica à situação do País, mergulhado em denúncias de corrupção enquanto o povo padece sem garantia do básico. Ou seja, nada diferente da situação de hoje. A abertura criada por Hans Donner e sua equipe mostrava uma festa da elite cujos convidados são aos poucos cobertos por um verdadeiro mar de lama, em meio ao qual jet-skis, carros de luxo e montes de dinheiro se faziam presentes. Ao final, tudo descia literalmente pelo ralo, no espaço que cabe ao Brasil no mapa das Américas.

Todavia, cabe destacar que a proposta de Silvio perdeu força diante da realidade, uma vez que durante a exibição da novela o então presidente Fernando Collor de Mello sofreu o processo de impeachment que o destituiu do cargo. De maneira que o foco da novela teve que ser redirecionado. Só para ilustrar, Jorge Fernando aparecia em cena em Deus nos Acuda como Brasil, sempre caindo de bêbado e dormindo pelas mesas do botequim de Quaresma (Emiliano Queiroz). “Acorda, Brasil!” era a palavra de ordem.

A Próxima Vítima: suspense com serial killer misterioso marcou época

Uma das grandes provas de fogo da carreira de Jorge Fernando, com toda a certeza, foi a direção de A Próxima Vítima (1995). Apesar da já vasta experiência na época, ele tinha nas mãos a responsabilidade da faixa mais nobre da emissora e vinha após uma produção tumultuada, Pátria Minha (1994/95). O horário em si não era novidade para o diretor, que anteriormente comandou não apenas Rainha da Sucata como também Sétimo Sentido e Sol de Verão, entre 1982 e 1983, no trio com Talma e Guel.

Silvio de Abreu criou uma história que unia diversos personagens e núcleos a partir de um crime cometido 27 anos antes, em 1968. O empresário Giggio De Angelis (Carlos Eduardo Dolabella) foi assassinado durante uma festa em seu iate, e um empregado de seu frigorífico, acusado do crime, foi preso, julgado, condenado e se suicidou na cadeia. Mas o homem era inocente, e o verdadeiro assassino se pôs a matar todas as testemunhas que poderiam implicá-lo. Todas ganharam 100 mil dólares na ocasião como cala-boca, e ao receberem uma carta com uma lista de signos do horóscopo chinês ficavam em pânico. Era a mensagem que dizia que a hora de cada um estava chegando.

Qualquer um dos personagens poderia morrer a qualquer momento. Bem como qualquer um poderia ser revelado como o assassino no desfecho da novela. Sem dúvida, A Próxima Vítima ofereceu a Jorge Fernando a oportunidade que faltava para demonstrar que seu talento como diretor ia muito além das comédias das 19h, sem demérito destas.

Até o fim dos anos 1990, Jorge Fernando dirigiu também o programa mensal de Cláudia Raia, Não Fuja da Raia, atração da faixa Terça Nobre em 1996. E as novelas Vira-lata (1996), Zazá (1997), Era Uma Vez… (1998) e Vila Madalena (1999/2000).

A parceria de Jorge Fernando e Walcyr Carrasco

Em 2001, Jorge Fernando dirigiu As Filhas da Mãe e em 2003 encontrou um parceiro frequente dos anos seguintes: Walcyr Carrasco. Chocolate Com Pimenta foi a primeira das cinco novelas do autor que o diretor conduziu, tanto às 18h quanto às 19h. Só para ilustrar, as outras foram Alma Gêmea (2005/06), Sete Pecados (2007/08), Caras & Bocas (2009) e Eta Mundo Bom! (2016). Todas tiveram boa audiência, e consolidaram o estilo de Walcyr com uma direção que valorizava as situações cômicas e também fez render os entrechos dramáticos. As cenas de personagens jogados no chiqueiro ou as guerras de comida, que se tornaram marcas das novelas da dupla, não seriam as mesmas sem o olhar de Jorge Fernando.

Os trabalhos de Jorge Fernando nos anos 2010

Nesta década, o artista ainda conduziu dois remakes na faixa das 19h: Ti-ti-ti (2010/11) e Guerra dos Sexos (2012/13). O primeiro, escrito por Maria Adelaide Amaral a partir da obra de Cassiano Gabus Mendes, ficou marcado pelo sucesso. Já o segundo, revivido pelo próprio autor Silvio de Abreu, não deu tão certo quanto poderia. Especialmente porque, ao contrário de Ti-ti-ti, Guerra dos Sexos estreou com um tom de novela antiga, sem a devida atualização, promovida apenas no decorrer da história. Ademais, Jorge Fernando dirigiu também o humorístico dominical Divertics (2013/14) e a novela Alto Astral (2014/15), de Daniel Ortiz a partir de sinopse de Andréa Maltarolli. E a minissérie Dercy de Verdade (2012), reprisada pelo Canal Viva neste mês.

O Jorge Fernando ator foi reencontrado pelo público de TV na série Macho Man (2011), de Alexandre Machado e Fernanda Young, também falecida neste ano. No programa, ele era Nelson Zucatelli, ou Zuzu, um cabeleireiro gay que depois de ser atingido na cabeça pelo sapato de uma cliente do salão acorda heterossexual. Sua amiga Valéria (Marisa Orth) o ajuda a se ambientar na nova realidade, enquanto ela mesma tem a ajuda dele para se entender consigo mesma após perder 20 quilos e deixar de ser obesa.

Jorge Fernando para além da televisão

Muita gente não sabe, com toda a certeza. Mas Jorge Fernando dirigiu diversos shows de artistas como Elba Ramalho, Chitãozinho & Xororó, Edson Cordeiro, Ney Matogrosso, Guilherme Arantes e Sidney Magal, entre outros. Como ator, ele participou de espetáculos teatrais, entre eles o conhecido Boom – Uma Explosão de Alegria. Nos primeiros anos de carreira, encenou em escolas e no teatro A História do Zoológico, versão em monólogo de Zoo Story, texto de Edward Albee. Jorge Fernando esteve também em A Rainha Morta, e contou sua própria história ao público em Salve Jorge. Além disso, dirigiu com Diego Morais Vamp – O Musical. Em meio aos ensaios do espetáculo, inclusive, foi que Jorge Fernando sofreu em 2017 um acidente vascular cerebral (AVC) que o afastou do trabalho por cerca de um ano. Sem dúvida, uma grande perda para a dramaturgia.

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