Não é segredo para ninguém que a Record TV é uma das emissoras de televisão mais ricas do país. Nos últimos anos, o canal com sede no bairro da Barra Funda, em São Paulo, mostrou uma pujança impressionante e investiu pesado em programação. Para se ter ideia, o orçamento de suas novelas chega perto de um milhão de reais por capítulo. O plano inicial era competir com a Globo e brigar pela liderança. Mas, em pleno 2019, o que se vê é uma rede pouco apta a garantir o segundo lugar de audiência.

É inevitável se perguntar por que a Record com tanto dinheiro e gana não consegue sair do lugar no ranking de canais mais assistidos. Nenhum produto da Record TV é plenamente líder de audiência e a emissora costuma comemorar muito o fato de ficar apenas minutos em primeiro lugar. Nem mesmo suas novelas, de padrão estético de patamar internacional, conseguem agradar a maioria dos telespectadores. O jornalismo, carro-chefe da programação, apesar de ampla estrutura, a maior fora da Globo, não descola do SBT Brasil.

Para entender melhor essa questão, é preciso observar como a grade da Record foi construída com pouca lógica para quem assiste. Depois de tentar espelhar a Globo, no projeto A Caminho da Liderança, a emissora, aparentemente, cortou seu orçamento e passou a focar no que mais lhe rende audiência: o jornalismo de crimes pesados. A emissora aposta em ‘sensacionalizar‘ o noticiário para elevar sua programação do horário nobre, com o Cidade Alerta.

Luiz Bacci no Cidade Alerta
Luiz Bacci no Cidade Alerta (Reprodução)

Ao invés de manter o difícil projeto de liderança, com uma programação ampla, a rede preferiu seguir um nicho de audiência fácil, atraída pelo horror da violência urbana que assola o Brasil. O Cidade Alerta, apesar de ser um noticiário, prefere entreter e não contemplar o telespectador que quer informações sobre o clima, trânsito ou as principais notícias de interesse público. Até funciona em um primeiro momento para elevar os números de audiência. Mas, depois de ficar horas e horas na cobertura de crimes bárbaros, o canal apresenta uma comédia-romântica.

Em geral, a novela Topíssima derruba a audiência do policialesco, o que é uma questão, já que o número de televisores ligados aumenta conforme mais tarde fica. Isso significa que a rede dos bispos não tem produtos complementares na grade. O ideal para uma rede de televisão, em qualquer parte do mundo, é agregar público, fazer o efeito dominó, mas o telespectador da Record não se sente completo. Veja que ele acompanha as histórias de crimes, mas não quer ver um folhetim, tampouco uma novela bíblica: O Rico e Lázaro derruba ainda mais a audiência.

Essa produção épica é, incrivelmente, uma reprise regular. A trama foi exibida originalmente em 2017, há somente dois anos. Aqui temos um cenário incoerente de uma emissora de alcance nacional, com orçamento milionário e um produto não inédito em pleno horário nobre. Nos dias atuais, isso seria impensável nos principais mercados de televisão do mundo. Talvez é o reflexo, não somente de uma crise generalizada da indústria no país, mas o sinal de que o mercado brasileiro, considerando o SBT, que também tem reprises, e a Band, que possui um horário vendido, não tenha atingido um nível de maturidade competitiva.

Celso Freitas e Adriana Araújo apresentando o Jornal da Record (Foto: Reprodução/ Record TV)

De um modo geral, no ocidente, a disputa é tão alta, inclusive com outras plataformas, que ter novidades de qualidade, no principal horário da programação, é uma premissa básica. A televisão aberta e comercial americana, por exemplo, apresenta reprises estratégicas no horário nobre, jamais regularmente, por meses. Para piorar, a repetição da Record é seguida pelo mais importante telejornal da emissora. Ele é exibido depois de todos os outros principais jornais concorrentes.

Quando todo mundo já se informou no Jornal Nacional, no SBT Brasil e no Jornal da Band, o que teria o Jornal da Record de diferente para ser assistido? Nada. O noticiário segue o mesmo formato dos demais, com o mesmo padrão de diário dos demais. Nem a função de manter o telespectador fiel da emissora ele cumpre, já que derruba ainda mais os números das novelas.

Dancing Brasil
Xuxa no Dancing Brasil (Divulgação)

Para fechar o horário nobre, apesar do alto investimento em entretenimento, não há o estabelecimento de um hábito, tamanha aleatoriedade dos programas da faixa das 22h30. Às vezes, há reality shows exibidos todos os dias, como é o caso de A Fazenda e o Power Couple Brasil, que, apesar da quebra de público vindo do noticiário, conseguem manter uma audiência fiel. Mas, nos outros dias, há programas de talento, séries ou filmes, que também não se complementam à grade regular diária. Dificilmente, o telespectador que vê todos os dias o Cidade Alerta se mantém na Record para acompanhar o Dancing Brasil, no late-night de quarta-feira.

Talvez, a partir da experiência da própria Record e observando outros mercados televisivos, a Record obterá uma resposta condizente ao seu investimento, isso quando conhecer seu telespectador e procurar satisfazer seu desejo de entreter e se informar plenamente. O canal precisa construir uma grade mais coesa e coerente com as características do público atual, mais do que nunca. Do contrário, os números de audiência só serão realmente interessantes em momentos específicos, como os de baixa da concorrência.

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