Lidi Lisboa como Jezabel
Lidi Lisboa como Jezabel: novela termina trajetória sem vencer o SBT (Divulgação/Record TV)

Na noite desta segunda-feira, a Record TV exibe o 80º e último capítulo de Jezabel. Escrita por Cristianne Fridman, também autora de Topíssima, que a precede na programação da emissora, a história que passou de cerca de 10 capítulos a oito vezes mais do que isso obteve números de audiência medianos em relação a antecessoras da “faixa bíblica”. Entre 6 e 8 pontos quase sempre, só para ilustrar. E isso pode ser explicado diante de alguns elementos.

Mulher, vilã e negra, Jezabel não agradou a todo mundo

Jezabel (Lidi Lisboa) era uma princesa de origem fenícia, que cultuava vários deuses e em virtude disso criou diversos problemas durante sua estada em Israel, onde se tornou esposa do Rei Acabe (André Bankoff). Evidentemente, numa época ditada por dogmas religiosos, os interesses políticos e econômicos diretamente relacionados à fé, esses conflitos evoluiriam para guerras. Bonita e sensual, a princesa usou e abusou de seus atributos físicos para obter o que queria. O militar Hannibal (Rafael Sardão) foi um dos homens que cederam aos encantos de Jezabel. Só para exemplificar, Tadeu (Victor Sparapane), filho de Nabote (Flávio Galvão), foi outro.

Não é de hoje que os vilões têm exercido verdadeiro fascínio sobre a audiência, podemos dizer. Há quase 15 anos, quando escreveu Belíssima, Silvio de Abreu já declarava que o público mudava sua percepção dos vilões e até torcia por eles sem maiores dificuldades. Todavia, não foi o que ocorreu em se tratando de Jezabel.

Logo após uma sequência de histórias centradas em heróis da Bíblia, figuras carismáticas e exemplares do ponto de vista cristão, a exemplo de Moisés e Josué, a Record TV apostou numa macrossérie protagonizada por uma mulher, negra e poderosa, de mau caráter e capaz de tudo para conquistar poder, influência e garantir o culto a vários deuses e não a um só, o Deus verdadeiro.

Quem sabe outro título e viés salvassem o projeto dos números medianos

Nos anos 1990, a emissora produziu uma minissérie a partir do mesmo enredo, O Desafio de Elias. Com efeito, se agora o título tivesse sido reaproveitado, e o profeta fosse o centro da ação, quem sabe os resultados não fossem melhores? Se por um lado foi louvável a opção da autora Cristianne Fridman e da emissora de partir de Jezabel para desenvolver a narrativa, por outro justamente isso pode ter colaborado para que a recepção fosse truncada como se viu.

Queila (Juliana Knust) em Jezabel
Queila (Juliana Knust) em Jezabel (Reprodução/Record TV).

A produção da macrossérie merece elogios, bem como a fotografia e a cenografia. Os trabalhos de atores mais experientes como Flávio Galvão, Leonardo Franco e Juliana Knust merecem destaque num elenco de muitas caras jovens. Dentre essas, aliás, menção a Bárbara Maia e Juliana Xavier. Além disso, Sthefany Brito se sobressaiu como aquela que pode-se dizer tenha sido a maior das surpresas positivas da história. Sua personagem Raquel deu à atriz a possibilidade de se desvencilhar da imagem de “mocinha” e passar a ser vista como mulher adulta e amadurecida. Uma das tramas mais interessantes da macrossérie envolveu Raquel, o estupro que sofreu e sua relação com o noivo e posterior marido Micaías (Guilherme Dellorto).

Repercussão de Jezabel mostra sinais de cansaço do filão bíblico

A dramaturgia bíblico-cristã na qual a Record TV apostou decisivamente nessa década, com efeito, colheu bons frutos. O mais significativo dos títulos foi até aqui Os Dez Mandamentos (2015/16), de Vivian de Oliveira. Ao menos entre as produções mais longas, uma vez que minisséries como Rei Davi (2012) e José do Egito (2013) não fizeram feio nem em suas reprises. No entanto, desde 2017, com Apocalipse, da mesma Vivian, a faixa bíblica da Record TV tem passado por momentos menos felizes.

No SBT, uma concorrência forte com histórias infantojuvenis e “para a família”

Com toda a certeza, não se pode ignorar o sucesso do horário de novelas infantojuvenis do SBT, que compete diretamente com as histórias cristãs da concorrente. Todavia, mesmo diante de uma rival como As Aventuras de Poliana, que vai bem desde o início, Jesus (2018/19), de Paula Richard, poderia ter atraído mais telespectadores que se mantiveram fiéis ao Jornal Nacional, por exemplo. Ainda mais ao tratar de tão representativo personagem, ícone de tantas formas e por tantos vieses.

Embora possamos encontrar arestas a serem aparadas em Jezabel, sem dúvida a macrossérie merecia melhores números do que os que conquistou nessa primeira apresentação. E digamos “primeira”, porque seguramente a emissora a reapresentará num futuro próximo. Talvez obtenha até mais audiência do que dessa primeira vez. O que não invalida a necessidade de investimentos em outros gêneros pela Record TV. A audiência de Topíssima e das reprises vespertinas, especialmente Bela, a Feia, comprovam essa teoria.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

Últimos vídeos do Canal no YouTube