Ruth de Souza (Reprodução/Globo)

Muita gente não tem ideia da dimensão da perda ocorrida neste domingo. Aos 98 anos, a atriz Ruth de Souza faleceu após alguns dias internada no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, devido a uma pneumonia. Primeira atriz negra a se apresentar no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na década de 1940, Ruth desbravou um caminho hoje trilhado por diversos profissionais. Com toda a certeza, sem ela, sua determinação, sua afronta ao racismo e a afirmação constante e cada vez maior de seu talento para a arte de interpretar, o cenário hoje seria ainda pior do que é para os atores negros brasileiros.

Desde criança, Ruth de Souza queria ser atriz; e foi uma das nossas maiores

Filha de uma lavadeira e um lavrador, Ruth Pinto de Souza nasceu na zona norte do Rio de Janeiro em 1921. Já na infância ela manifestou o desejo de se tornar atriz. Com toda a certeza, para a época era um absurdo para muitos, uma vez que não havia atores negros, menos ainda atores negros de destaque. Era comum ver atores pintados de preto para interpretar personagens negros, o chamado blackface. Não que hoje, décadas depois, seja muito diferente. Embora paradoxalmente tenha havido avanços, muitos devido a figuras como Ruth de Souza.

Estudos no exterior e a volta ao Brasil para brilhar

O que parecia tão distante e praticamente impossível se realizou, devido à determinação de Ruth. Ela chegou a estudar nos Estados Unidos, mas voltou ao Brasil para na terra natal alcançar a consagração. O Imperador Jones, montada em 1945 pelo grupo do Teatro Experimental do Negro, foi a primeira de cerca de 20 peças das quais Ruth participou. Com efeito, merece destaque Quarto de Despejo, levada em 1961 a partir dos escritos de Carolina Maria de Jesus, interpretada por Ruth no palco. Ademais, cerca de 20 anos depois a atriz repetiu o papel de Carolina num Caso Verdade da Globo, baseado na mesma obra literária.

A chegada à televisão

Expoente do teatro de seu tempo e de um cinema brasileiro feito com propósitos e condições bem diversas das atuais, Ruth de Souza ingressou na televisão na década de 1950, praticamente junto com o próprio advento do veículo. A saber, ela integrou o elenco de diversos espetáculos do Grande Teatro Tupi. Na mesma época foi a primeira atriz brasileira (não importando a cor, diga-se) a ser indicada para um prêmio internacional de cinema. A saber, o Leão de Ouro no Festival de Veneza em sua edição de 1954, por sua atuação como Sabina em Sinhá-Moça, produção da Vera Cruz.

Em 1965, aos 44 anos, foi a Narcisa em sua primeira novela, A Deusa Vencida, de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior. Posteriormente vieram outras dezenas, todas na Globo. A primeira delas foi Passo dos Ventos (1968/69), de Janete Clair.

O constrangimento e a humilhação em A Cabana do Pai Tomás, novela que a atriz protagonizou

Ruth de Souza e Sérgio Cardoso em A Cabana do Pai Tomás
Ruth de Souza e Sérgio Cardoso em A Cabana do Pai Tomás (Cedoc/Globo)

Ruth de Souza foi a primeira protagonista negra de uma novela da Globo. Em 1969, ela viveu a Tia Cloé de A Cabana do Pai Tomás, baseada na obra homônima de Harriet Beecher Stowe. Esposa do Pai Tomás (Sérgio Cardoso, um caso de blackface), sua personagem era bastante importante no enredo adaptado por Hedy Maia e Walther Negrão, entre outros roteiristas. No entanto, a atriz abriu mão do destaque que teve nos créditos da produção em favor de atrizes brancas. Estas reclamaram em virtude de virem depois dela na apresentação do elenco.

De tal forma que, lamentável a qualquer época, a atitude é só uma das muitas demonstrações de como a questão étnico-racial deve ser tratada para que o preconceito de cor não provoque outras da mesma natureza. Além disso, deve ser apontado o fato de que Ruth em geral foi mal creditada no decorrer de sua longa carreira. Com toda a certeza, ela merecia bem mais prestígio nas apresentações dos trabalhos do que aquele que lhe foi conferido.

O talento de Ruth de Souza contribuiu para o enriquecimento da proposta experimental do horário das 22h

Embora tenha havido esse episódio desagradável e triste, Ruth de Souza seguiu na emissora. Trabalhou em diversas novelas de Dias Gomes, nas décadas de 1970 e 1980. A parceria dos dois começou com a Clementina de Verão Vermelho (1970). A personagem era mãe biológica de Geralda (Lúcia Alves), que a renegava por conta da cor. O pai da moça era branco, Simão (Urbano Lóes). Com efeito, Chiquinha do Parto, a enfermeira casada com o pescador Zelão das Asas (Milton Gonçalves, grande amigo de Ruth) e ajudante do médico Juarez Leão (Jardel Filho), de O Bem-amado (1973), é um dos trabalhos mais lembrados da carreira televisiva da atriz.

Ruth de Souza como Chiquinha em O Bem-amado (Reprodução/Globo)

Nos anos 1970, a Globo manteve o horário das 22h para novelas diferentes das apresentadas mais cedo. Propostas inovadoras, com narrativas diferenciadas e maiores inquietações sociais e políticas, mais possíveis pelo adiantado da hora, compunham as atrações da faixa. Ruth de Souza esteve presente em várias delas, atriz de talento e de importância para projetos mais arrojados. Aliás, das 15 novelas globais das 22h na década de 1970, Ruth participou de sete. Só para ilustrar: as já citadas Verão Vermelho e O Bem-amado e mais Assim na Terra Como no Céu, Os Ossos do Barão, O Rebu, O Grito e Sinal de Alerta. Levada em conta a trajetória criativa dos autores das novelas em questão – Dias Gomes, Bráulio Pedroso e Jorge Andrade, “pouca coisa” – não resta dúvida de que Ruth merecidamente esteve diretamente envolvida num grande momento de nossa teledramaturgia.

Ruth de Souza como Adelaide em Sinal de Alerta (Reprodução/Globo)

Ruth de Souza e a volta a Sinhá-Moça nos anos 1980

Ruth de Souza e Grande Otelo como Balbina e Justo em Sinhá-Moça (Reprodução/Globo)

Amadurecida, Ruth de Souza seguiu com bons papéis em novelas, especialmente como a matriarca. Corpo a Corpo (1984/85) e Mandala (1987/88) foram dois casos, além da Mãe Quitinha de Pacto de Sangue (1989), figura mais respeitada do quilombo na trama de Regina Braga, ambientada na época da luta pela Abolição da Escravatura. Além disso, Ruth de Souza revisitou a trama de Sinhá-Moça em duas adaptações para a televisão. Na primeira, de 1986, ela viveu a Nhá Balbina, amor da vida de Justo (Grande Otelo, outro amigo). Já na segunda, em 2006, fez uma participação muito especial como Mãe Maria. Merece ser destacada a Dona Mocinha de O Clone (2001/02), avó materna de Léo (Murilo Benício).

Apesar da idade avançada, Ruth de Souza seguiu dedicando a vida à arte

O avanço da idade foi tornando as aparições de Ruth um pouco mais espaçadas do que gostaríamos. No entanto, ela seguiu brindando os espectadores com atuações brilhantes em telas de todo tamanho. Só para exemplificar, “A Mãe Preta”, episódio do Você Decide de 2000, e os filmes As Filhas do Vento (2004), de Joel Zito Araújo, e O Vendedor de Passados (2015), de Lula Buarque de Holanda. O último trabalho exibido em vida da atriz foi a minissérie Se Eu Fechar os Olhos Agora, exibida pela Globo esse ano. O texto foi de Ricardo Linhares, com base no romance de Edney Silvestre.

Ruth já faz falta num país tão desigual e preconceituoso

Ruth de Souza como Mãe Quitinha em Pacto de Sangue (Reprodução/Globo)

Justamente homenageada no Carnaval de 2019 pela Acadêmicos de Santa Cruz, Ruth de Souza deixou sua marca no cenário artístico brasileiro. Ela, que em criança ouviu que pessoas brancas eram inteligente e negras tinha cérebro atrofiado. Não apenas pelo seu pioneirismo em mais de um quesito, tampouco “só” por seu grande talento. Ruth de Souza se eterniza também pela persistência. E pela oportunidade de mostrar que uma eventual incapacidade ou inferioridade está em quem vê e não em quem supostamente a carrega. Seu sorriso inconfundível e a garra de se lançar à conquista do sonho ficarão para sempre.

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