Rubens Ewald Filho numa coluna especial sobre o Oscar 1989 no Jornal da Globo (Reprodução/TV Globo)

Nesta quarta-feira, 19 de junho, Rubens Ewald Filho faleceu em São Paulo aos 74 anos. Muito conhecido e reconhecido por sua atividade como crítico de cinema, que exercia há quase 50 anos, ele era também advogado, professor e autor-roteirista de televisão e cinema. Facetas que foram suplantadas pelo grande entendedor de filmes, mas que especialmente num momento como esse devem ser lembradas.

Rubens Ewald Filho nasceu em 1945 e era natural da cidade de Santos, no litoral sul de São Paulo. Iniciou seu trabalho na imprensa em A Tribuna, principal jornal local, no fim dos anos 1960. Em 1975 lançou seu primeiro livro, Os Filmes de Hoje na TV. Homônimo da seção que a essa altura ele assinava em O Estado de S. Paulo. O segundo livro, lançado em 1977, foi o Dicionário de Cineastas, referência imediata para profissionais, pesquisadores e curiosos. Rubens trabalhou também no Jornal da Tarde, em Veja e nas TVs Globo, Cultura e Rede TV!.

Rubens Ewald Filho na teledramaturgia brasileira

Em 1977, Rubens Ewald Filho estreou como autor-roteirista em nossa teledramaturgia. Tanto ele quanto Silvio de Abreu iniciaram sua carreira no gênero novela com Éramos Seis, exibida naquele ano pela Rede Tupi. A saber, já era a terceira ocasião na qual a TV recorria ao romance de Maria José Dupré. Rubens e Silvio haviam sido contratados por Roberto Talma, durante uma rápida passagem deste pela Tupi. Talma encomendou-lhes um projeto e a dupla pensou numa novela-catástrofe, transpondo o filão de títulos cinematográficos como Inferno na Torre e Aeroporto para a tela pequena. Passaram-se algumas semanas e, nesse ínterim, Talma saiu e foi substituído nas funções por Carlos Zara e Henrique Martins.

Os dois receberam a encomenda de uma novela no estilo de Locomotivas, para concorrer com a da Globo. Todavia, Rubens e Silvio argumentaram que para rivalizar com a história de Cassiano Gabus Mendes, sucesso às 19h, era necessária uma novela eminentemente paulista e familiar, emocionante. Ambos haviam lido o romance Éramos Seis e gostado muito dele, que evocava suas infâncias e as próprias famílias. Aprovada a ideia, os autores se puseram a desenvolver este que foi um dos últimos êxitos da Tupi. Logo após Éramos Seis, ambos foram contratados pela Rede Globo. Mas na emissora carioca atuariam separados, cada um com sua novela.

Novelas de Rubens Ewald Filho em outras emissoras

Em 1978, tanto Rubens Ewald Filho quanto Silvio de Abreu estrearam na Rede Globo. O primeiro foi adaptar outro romance de Maria José Dupré, Gina, para o horário das 19h. Enquanto Silvio seguiu na faixa das 19h. A saber, sua estreia se deu com Pecado Rasgado.

Na Bandeirantes e na Cultura, Rubens Ewald Filho desenvolveu bons trabalhos. Entre 1980 e 1982, Rubens Ewald Filho foi autor-roteirista na TVs Tupi, Bandeirantes e Cultura. Ambicioso projeto pensado pelo diretor Walter Avancini, Drácula teve apenas três capítulos exibidos em fevereiro de 1980, quando teve sua produção cancelada.

Rubens Ewald Filho retomou a novela com o título Um Homem Muito Especial no segundo semestre do mesmo ano, agora na Bandeirantes e com o mesmo Avancini à frente do núcleo. Boa parte do elenco foi mantida: Rubens de Falco, Bruna Lombardi, Carlos Alberto Riccelli, Cleyde Yaconis e Isabel Ribeiro interpretaram os personagens principais. No entanto, Rubens não escreveria a novela inteira; em virtude de uma viagem para o exterior, a fim de aproveitar uma bolsa de estudos que ganhara, deixou a novela e foi substituído. A saber, primeiro por Jayme Camargo e depois por Consuelo de Castro.

Telerromance: um dos autores selecionados para a empreitada da TV Cultura

Ao voltar de sua viagem, Rubens Ewald Filho começou a escrever adaptações da literatura brasileira para a TV Cultura, que entre 1981 e 1982 produziu o Telerromance. O ciclo consistiu em pequenas novelas que tiveram de 20 a 30 capítulos. Rubens escreveu três telerromances, todos exibidos em 1982. Da obra de Maria de Lourdes Teixeira, O Pátio das Donzelas centrava sua narrativa em cinco moças que alugavam quartos num casarão decadente de Higienópolis. Eram elas: Cinara (Wanda Stefânia), Daniela (Esther Góes), Pupe (Suzy Camacho), Eucleia (Malu Rocha) e Fernanda (Aldine Muller).

Do romance de Aluísio Azevedo, Casa de Pensão narrou as aventuras amorosas de Amâncio (Paulo Castelli). Na pensão de Dona Loló (Maria Célia Camargo), onde vai morar na época de estudos universitários, ele se envolve com três jovens: Hortênsia (Glauce Graieb), Lúcia (Kate Hansen) e Amelinha (Aldine Muller). A terceira história do Telerromance escrita por Rubens Ewald Filho foi Iaiá Garcia, do romance de Machado de Assis. Silvana Teixeira interpretou a personagem-título, filha do viúvo Luís Garcia (Fúlvio Stefanini) que é vista por D. Valéria (Arlete Montenegro) como a forma perfeita de afastar seu filho Jorge (Dênis Derkian) de Estela (Elaine Cristina). Esta acaba envolvida justamente pelo viúvo.

No SBT, o reencontro com a história da estreia

Posteriormente, em 1994, Rubens Ewald Filho retomou sua adaptação de Éramos Seis, aquela com a qual se lançou na Tupi ao lado de Silvio de Abreu. Visto que Silvio estava contratado pela Globo, Rubens cuidou sozinho do remake feito pelo SBT, responsabilizando-se pelas eventuais alterações que fossem necessárias. Por mais que tenha havido fidelidade à versão anterior, houve algumas mudanças. Só para ilustrar, a versão do SBT teve uma personagem inexistente em 1977: Amanda, interpretada pela estreante Ana Paula Arósio. Sua função foi representar um interesse romântico para Carlos (Jandir Ferrari) enquanto ele não reencontrava sua paixão da infância, Carmencita (Eliete Cigarini).

O crítico de cinema que popularizou a profissão e influenciou gerações de estudiosos

Rubens Ewald Filho começou a comentar a cerimônia de entrega do Oscar nas transmissões televisivas do evento em 1980. Nesses quase 40 anos os direitos da transmissão passaram por diversas emissoras de TV aberta e fechada. Rubens sempre apresentou memória prodigiosa, citando para os espectadores as vastas carreiras dos indicados e comentando prós e contras das películas “oscarizáveis”. Com efeito, Rubens o fez sempre com um estilo próprio, refinado, irônico e assustadoramente rico de conhecimento. Enciclopédico talvez, mas nunca artificial. O Oscar e Eu, outro de seus livros, publicado pela Editora Nacional em 2003, ajuda a reconstituir um pouco da história da premiação, de seus critérios sempre variáveis e discutíveis e da relação de Rubens com o trabalho na transmissão.

Aplauso: uma grande contribuição de Rubens Ewald Filho à memória da cultura brasileira

Na década passada, Rubens Ewald Filho foi o coordenador geral de uma iniciativa valorosa para profissionais, pesquisadores e para o público em geral. A Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançou mais de 100 volumes com críticas de teatro e cinema, roteiros de filmes, textos de dramaturgia e, principalmente, perfis de profissionais importantes do cenário artístico. Atores, autores, encenadores, cineastas; um registro de seu fazer e seu pensamento para as gerações contemporâneas e posteriores de valor inestimável para a compreensão e a valorização da cultura brasileira.

Entre os autores reunidos por Rubens para a empreitada, só para exemplificar: Alfredo Sternheim, Máximo Barro, Tania Carvalho, Vilmar Ledesma, Elmo Francfort, Álvaro de Moya, Vida Alves, Nilu Lebert, Mauro Alencar, Nydia Lícia e Eliana Pace.

Com a partida de Rubens Ewald Filho, em que pese a existência de diversos críticos e estudiosos de cinema, muitos dos quais influenciados por ele, com toda a certeza abre-se uma lacuna em nosso cenário de jornalismo cultural. Mais de 37 mil filmes assistidos, desde os registrados em cadernos ainda na infância, uma carreira de sucesso e a lição de amor pela sétima arte marcam seu nome entre os mais destacados, com toda a certeza.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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