Gabriel (Bruno Gagliasso), de O Sétimo Guardião, na Globo
Gabriel (Bruno Gagliasso), de O Sétimo Guardião, na Globo (Reprodução)

O Sétimo Guardião, definitivamente, não deve ficar na memória. A trama de Aguinaldo Silva, alardeada por marcar o retorno do autor ao universo fantástico, se mostrou insossa e repleta de problemas estruturais. Não houve mágica da fonte de água milagrosa que deu jeito na história, que cambaleou até o seu desfecho, exibido hoje (17) na Globo.

Uma das características do realismo fantástico é a aposta no misticismo como metáfora aos assuntos da atualidade. Para sustentar este universo, os enredos costumam apostar em tipos marcantes, às vezes bizarros, com manias e cacoetes. E O Sétimo Guardião tinha um mote inicial interessante, que poderia render. Ao retratar uma fonte de água milagrosa que deve ser protegida por sete guardiões, a história poderia, por meio da fantasia, falar sobre o problema da falta de recursos hídricos. Ou da exploração desenfreada dos recursos naturais. No entanto, o enredo da novela ficou na superfície, sem se aprofundar nas águas da bela fonte mágica.

O Sétimo Guardião apresentou ao público a fonte, seus guardiões e algumas das regras da Irmandade, formada por aqueles que devem protegê-la. A novela também mostrou alguns dos poderes mágicos da água, como o rejuvenescimento e a cura instantânea. Porém, não houve a preocupação em dar mais detalhes desta trama mágica. A Irmandade não teve sua origem revelada adequadamente, e a água nunca foi usada para fins verdadeiramente úteis. Afinal, por que a fonte tinha sete protetores, se eles nunca usavam a água pra nada? Ou seja, o público, em nenhum momento, foi convidado a compartilhar do segredo da fonte com os guardiões.

A Irmandade

Para piorar, os sete guardiões se revelaram personagens sem nenhum apelo. Machado (Milhem Cortaz), Feliciano (Leopoldo Pacheco), Ramiro (Aílton Graça), Aranha (Paulo Rocha), Milu (Zezé Polessa) e Ondina (Ana Beatriz Nogueira) representavam tipos interessantes das cidadezinhas de novela. Eram o padre, o delegado, o médico, a cafetina, o mendigo e a esotérica. Ou seja, por si só, eles poderiam ser personagens de impacto. Mas nenhum deles foi desenvolvido adequadamente.

Milu, por exemplo, tinha tudo para ser uma figura cômica das mais simpáticas. Com características fortes, e vivida por uma atriz perita em comédia, ela foi feita para acontecer. No entanto, não havia história para ela. O mesmo aconteceu com Ondina, que nem de longe lembrava as fortes e imponentes cafetinas que povoam o universo dramatúrgico de Aguinaldo Silva.

E havia ainda Gabriel (Bruno Gagliasso), o guardião-mor e o pior dentre os guardiões. Tomado por arrogância e com um mau humor irritante, o mocinho destruiu a Irmandade com suas atitudes egoístas. Então, como torcer por um mocinho tão apático e sem carisma? Sem dúvidas, o “herói” foi o principal erro da história. Não por acaso, quando os guardiões começaram a ser assassinados, não houve comoção. Ninguém se interessava por eles, afinal.

Sem graça

O Viva exibiu, recentemente, alguns clássicos do realismo fantástico de Aguinaldo Silva, como Fera Ferida e A Indomada. Nas duas histórias, era possível enxergar um tom cômico que ajudava o espectador a acreditar nas situações absurdas da proposta fantástica. Atualmente, está no ar Porto dos Milagres, que não carrega tanto na comédia. Mas, ainda assim, tem um tom cômico afiado, que dá substância aos tipos da cidade onde a trama se passa.

No entanto, em O Sétimo Guardião, o tom adotado foi o do suspense e do drama. Não havia cor na história, e os personagens pareciam todos deprimidos. Apesar da proposta mágica, o que mais se viu foi violência, como na vida real. Seja na matança da reta final, ou na maneira como Nicolau (Marcelo Serrado) tratava a mulher e os filhos, quase tudo por ali desanimava quem assistia. Houve uma tentativa de humor no início da história, como o frisson causado pelo coroinha que se pendurava no sino da igreja sem roupas de baixo. Um humor bobinho, que misturava ingenuidade e malícia, mas que não ofendia ninguém. Durou pouco.

Desperdício de talentos

Por fim, O Sétimo Guardião teve um elenco estrelado, mas com poucas oportunidades. Lília Cabral (Valentina), Tony Ramos (Olavo), Flavia Alessandra (Rita de Cássia), Eduardo Moscovis (Murilo), Vanessa Giácomo (Stela) e Carol Duarte (Estefânia), entre outros, foram mal aproveitados. Yanna Lavigne, a Laura, e Fernanda de Freitas, a Louise Marie, estavam claramente com os papéis trocados. Fernanda, excelente atriz, com certeza tinha mais condições de dar vida à antagonista e torná-la uma peste adorável. Fica para a próxima.

Ficam então os aplausos para Isabela Garcia (Judith) e Elizabeth Savalla (Mirtes), que levaram a novela nas costas. Também merece menção Nany People, ótima como Marcos Paulo. No mais, O Sétimo Guardião passou em brancas nuvens, e será mais lembrada pelos bastidores conturbados. Para quem esperava a volta do realismo fantástico da melhor qualidade, a decepção foi grande. Uma pena.

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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