Dom Sabino (Edson Celulari) em O Tempo Não Para
Dom Sabino (Edson Celulari) em O Tempo Não Para (Divulgação/TV Globo).

O desfecho de O Tempo Não Para, exibido ontem (28) na Globo, em nada lembrou sua estreia. A novela de Mário Teixeira estreou com a promessa de uma trama inusitada. Com bons personagens, situações interessantes e diálogos afiados, bem-humorados e repletos de críticas sociais. Porém, o que se viu no final foi uma história rasa e respirando por aparelhos. Ou seja, O Tempo Não Para foi uma boa ideia desperdiçada.

O início da trama chamou a atenção. Ao narrar a história de uma família do século 19 que desperta em 2018, o autor Mário Teixeira propôs uma divertida brincadeira, ao contrapor o passado e o presente. O mote deu margem a uma série de diálogos inspirados, com um humor refinado, que expunha onde evoluímos e onde regredimos do século 19 para cá. As surpresas de Dom Sabino (Edson Celulari num dos melhores momentos de sua carreira) diante das novidades modernas rendiam ótimas situações.

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Além disso, O Tempo Não Para teve o trunfo de formar um casal principal gracioso. Marocas (Juliana Paiva), uma mocinha de época, mas à frente do seu tempo, se apaixonou por Samuca (Nicolas Prattes), um bem-sucedido e moderno empresário. Entre eles, dois problemas consideráveis. Um deles eram as diferenças culturais das épocas distintas que os separavam. O outro, o fato de a SamVita, empresa de Samuca, ter sido construída em terras que pertenceram à Dom Sabino. E que ele esta disposto a fazer de tudo para recuperar.

Casamento antecipado e mudanças em tramas paralelas

Entretanto, após primeiras semanas muito divertidas, O Tempo Não Para caiu no lugar-comum. Aos poucos, os personagens congelados se adaptaram aos tempos modernos, fazendo a novela perder um de seus principais charmes. Com isso, o autor Mário Teixeira propôs novas situações para eles. Assim, várias tramas paralelas mudaram de rumo ou perderam força.

Além disso, foi um equívoco casar Marocas e Samuca tão cedo. Um dos ingredientes básicos do folhetim é justamente o amor impossível, que ultrapassa diversas barreiras para se concretizar. E as barreiras que separavam Marocas e Samuca foram removidas rápido demais. Ao que tudo indica, o fato de o casal ter caído nas graças da audiência impediu o autor de mantê-los separados por muito tempo. E isso foi um erro.

Com o casal principal junto e congelados adaptados, Mário Teixeira passou a fazer uso de um sem-número de recursos pouco eficazes para manter a trama de pé. Tratou de matar um vilão, Emílio (João Baldasserini), mas o substituiu por seu irmão gêmeo idêntico, Lúcio (João Baldasserini). A troca não fez qualquer sentido. Além disso, foram criados factoides tolos, que em nada acrescentaram à história, como as falsas gravidezes de Carmen (Christiane Torloni) e Agustina (Rosi Campos). Ou o “vírus mortal” que acometeu os congelados.

Isso sem falar nos inúmeros personagens que sumiram ou perderam função na obra. Zelda (Adriane Galisteu), Monalisa (Alexandra Richter), Teófilo (Kiko Mascarenhas), Helen (Rafaela Mandelli), Cairu (Cris Vianna), Amadeu (Luiz Fernando Guimarães), Mazé (Juliana Alves), Marino (Marcos Pasquim), entre outros.

O Tempo Não Para x I Love Paraisópolis

Assim, em O Tempo Não Para, o autor Mário Teixeira acabou repetindo o mesmo erro de I Love Paraisópolis, novela das sete que assinou com Alcides Nogueira em 2015. Nesta história, o casal protagonista Mari (Bruna Marquezine) e Ben (Maurício Destri) também caíram nas graças da audiência e se casaram no meio da trama. Depois disso, perderam função na história. Para que a trama andasse, foram criados novos e estranhos entrechos, como o vilão Dom Peppino (Lima Duarte, que inicialmente faria apenas uma participação, mas retornou depois), um mafioso que tocava o terror na comunidade paulistana de Paraisópolis.

Com tais manobras, I Love Paraisópolis se perdeu em sua proposta original e acabou perdendo fôlego. Estreou promissora, mas terminou se arrastando. O mesmo se deu com O Tempo Não Para. Uma pena.

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