Beto Falcao (Emilio Dantas) de Segundo Sol
Beto Falcão (Emílio Dantas) de Segundo Sol (Divulgação/TV Globo)

Aconteceu com Segundo Sol o que vem acontecendo com muita novela recente. Com boa premissa, a trama criou a melhor das expectativas, mas perdeu fôlego e não entregou o que prometeu. Uma pena, pois a saga de Beto Falcão (Emílio Dantas) era um tanto original e divertida, e que poderia render muito. Mas o novelista João Emanuel Carneiro não apostou neste eixo, preferindo focar no dramalhão familiar de Luzia (Giovanna Antonelli). Assim, ficou a impressão de que houve uma boa ideia desperdiçada.

Segundo Sol deveria ter cumprido as promessas das chamadas e da campanha de lançamento e ser a novela sobre Beto Falcão. A história do cantor decadente que volta ao sucesso após ser dado como morto poderia ter rendido muito. Afinal, é um tema que encontra ecos evidentes na vida real. Não são poucos os exemplos de artistas que explodiram após morrerem. A comoção popular de uma morte levou muito cantor a bater recordes de vendas de CD’s e execuções nas rádios.

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Assim, se Beto Falcão tivesse se mantido no posto de protagonista, Segundo Sol poderia ter tido um rumo mais interessante. A trama poderia ter explorado a dubiedade do herói, que tinha bom coração, mas não hesitou em viver da farsa de sua morte. Além disso, Segundo Sol poderia ter explorado seu esforço em se manter incógnito para não ver sua farsa cair por terra. Mais tarde, quando finalmente fosse descoberto, a história poderia ter girado em torno de seu processo de reconstrução. O foco seria sua busca pelo perdão de seus fãs, ao mesmo tempo em que se relança com outra proposta. Por fim, faria as pazes com o sucesso.

Tudo isso, claro, com Karola (Deborah Secco) e Laureta (Adriana Esteves) em seu encalço. Como as duas sempre lucraram com a farsa da morte de Beto, elas seguiriam armando para que o cantor jamais se revelasse. Luzia, ao mesmo tempo em que tentava reunir sua família, poderia ser a grande ameaça das vilãs. Afinal, o amor de Beto por Luzia é que sempre o faria considerar acabar com a farsa de vez e “voltar dos mortos”. Mas nada disso aconteceu.

Sem Segundo Sol para Beto

João Emanuel Carneiro já havia afirmado que a protagonista de Segundo Sol era Luzia. Uma pena ele ter levado isso a sério. Beto tinha muito mais condições de fazer a novela acontecer, como dito acima. No entanto, o autor preferiu implodir sua história logo no início da novela, tornando Beto um coadjuvante desnecessário. O fato de ele nunca ter se preocupado em se esconder, ou sua retomada como Marçal nunca tenha dito a que veio, estragou o pouco que já restava do personagem.

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Enquanto isso, Luzia foi uma heroína sem brilho. Ingênua até a medula, acreditou nas armações mais estapafúrdias das vilãs. Sua saga entrou num looping eterno de cair nas mesmas armadilhas de sempre. Até mesmo a reaproximação com sua família, que seria a grande motivação da mocinha, foi feita de maneira pouco convincente. O carisma e o talento de Giovanna Antonelli não foram suficientes para segurar a onda.

Soluções de última hora

Outra falha de Segundo Sol foi o fato de a novela ter apresentado soluções que ficaram parecendo resoluções de última hora. A revelação de que Remy (Vladimir Brichta) era irmão de Laureta ficou um tanto forçada, tendo em vista que os dois sempre insinuavam uma antiga tensão sexual. Assim, quando Laureta assumiu ser mãe de Karola, ficou evidente o caso entre sobrinha e tio, já que Karola era amante de Remy desde o início da história. A revelação ficou por isso mesmo.

Destaques que se apagaram

Em meio a tantas falhas, Segundo Sol teve alguns trunfos. Rosa (Letícia Colin) foi alçada à protagonista moral da história, e com toda razão. Uma personagem forte, ativa, e que encontrou uma intérprete à altura. E o mais interessante é que Rosa estava sempre na tênue linha entre a ambição e o mau-caratismo. No entanto, quando se tornou cúmplice de Laureta, a personagem desapareceu misteriosamente. Seu brilho apagou para reacender apenas na reta final, quando se redimiu.

O mesmo aconteceu com Roberval (Fabrício Boliveira). O núcleo dos Athayde era o mais original da novela. Mas Roberval passou de vingativo a carente de maneira pouco sutil. E seu drama acabou tendo uma resolução fácil. O clã Atahyde praticamente mudou de personalidade do dia para a noite.

Ou seja, Segundo Sol acabou não entregando o que prometeu. A trama teve bons personagens e situações interessantes, mas não conseguiu se desenvolver adequadamente. Teve seus méritos, sobretudo nas atuações e na direção certeira. Mas ficou devendo no quesito criatividade.

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