Ofélia ( Vera Holtz ) e as filhas: Elisabeta (Nathalia Dill); Jane (Pamela Tomé); Cecília (Anaju Dorigon); Lídia (Bruna Griphão) e Mariana (Chandelly Braz) em Orgulho e Paixão
Ofélia ( Vera Holtz ) e as filhas: Elisabeta (Nathalia Dill); Jane (Pamela Tomé); Cecília (Anaju Dorigon); Lídia (Bruna Griphão) e Mariana (Chandelly Braz) em Orgulho e Paixão (Divulgação/ TV Globo)

Chegou ao fim ontem a “novelinha” das 18h da Rede Globo, Orgulho e Paixão. E as aspas indicam aqui uma referência ao modo como há quem se refira ao horário, por sua leveza habitual. No entanto, com toda a leveza e romantismo tem exibido algumas das melhores produções de teledramaturgia da casa nos últimos anos. Vai na total contramão da faixa das 21h, por exemplo.

Marcos Bernstein partiu da obra da inglesa Jane Austen para erguer sua história, mesclando elementos de diversos romances. Todavia, conseguiu construir algo novo e inteligente, desprendendo-se dos romances sem desqualificá-los. O fictício Vale do Café, no interior paulista, fez as vezes da Inglaterra do século 19. Ambientada na década de 1910, a trama partia das cinco irmãs Benedito. Ofélia (Vera Holtz), mãe das moças, desejava casar com pessoas “de posses”.

Mariana (Chandelly Braz), Cecília (Anajú Dorigon), Jane (Pamela Tomé) e Lídia (Bruna Griphao) sonhavam com seus príncipes encantados. Mas Elisabeta (Nathália Dill), a mais velha, ia contra o que era permitido a uma mulher do seu tempo. Sonhava viajar o mundo todo e não tinha o casamento como uma prioridade em sua vida, embora considerasse a hipótese. Até que conheceu o milionário Darcy Williamson (Thiago Lacerda), e dos conflitos entre eles nasceu um caso de amor que teve diversos obstáculos. Como em toda boa novela.

A Rainha do Café, uma das grandes personagens da história

Gabriela Duarte como Julieta Bittencourt em Orgulho e Paixão
Gabriela Duarte como Julieta Bittencourt em Orgulho e Paixão (Divulgação)

Gabriela Duarte teve em Orgulho e Paixão um bom momento em sua carreira que já conta quase 30 anos. Na pele de Julieta Bittencourt, a poderosa “Rainha do Café”, a atriz se constituiu numa das maiores atrações da história, com uma personagem difícil e distante da Gabriela a que o público se habituou. A personagem serviu para afastar, ao menos parcialmente, a sombra da Maria Eduarda de Por Amor (1997/98). Dominadora, seca, severa e opressora, Julieta enrustia com essas “qualidades” uma mulher doce e carente de amor, o que nunca tivera. Nem da parte do marido, que a estuprara quando ainda muito jovem. O ato gerou o filho único, Camilo (Maurício Destri), cujo casamento com Jane de início sofre grande oposição da milionária.

Aurélio (Marcelo Faria), filho do Barão de Ouro Verde (Ary Fontoura), cai de amores por Julieta. Ironicamente, o amor dos dois também tem oposição de um parente ascendente. No caso, o pai de Aurélio, que não gosta de Julieta por creditar a ela sua ruína financeira. Na verdade, ela apenas comprou dele uma propriedade, não tendo qualquer influência ou responsabilidade pela perda pregressa do resto.

Globo exibe beijo gay em Orgulho e Paixão e público vai à loucura

A abordagem da homossexualidade em Orgulho e Paixão

Luccino (Juliano Laham) e Otavio (Pedro Henrique Muller) de Orgulho e Paixao
Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller) de Orgulho e Paixão (Reprodução/TV Globo)

Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller) iniciaram uma relação que evoluiu para uma bela história de amor. O auxiliar do Coronel Brandão (Malvino Salvador) e um dos oficiais da guarda local do Vale do Café de início eram heterossexuais, supostamente. Mas acabaram se descobrindo atraídos e apaixonados. A forma como o amor de Luccino e Otávio foi construída, sem estereótipos, sem apresentá-los como afeminados ou qualquer coisa do tipo, é digna de todos os elogios. O autor Marcos Berstein e o diretor Fred Mayrink marcaram aqui mais um tento nesta novela que, com uma cena de beijo dos dois rapazes, marcou o primeiro beijo homossexual do horário em 47 anos. Ou seja, desde sua implantação pela emissora.

Alessandra Negrini: bela, ardilosa e engraçada

Susana (Alessandra Negrini) de Orgulho e Paixao
Susana (Alessandra Negrini) de Orgulho e Paixão (Divulgação/TV Globo)

Susana foi uma pedra no sapato de vários personagens da novela ao longo de seis meses. Desejosa de ascensão social e de um bom casamento, preferencialmente com Darcy, a personagem ofereceu a Alessandra Negrini mais uma oportunidade de brilhar na TV. Manipulando patrões, amigos e estranhos conforme suas necessidades e conveniências, Susana teve como parceira de tramoias a empregada Petúlia (Grace Giannoukas, também ótima em cena). Embora tenha cometido maldades e se envolvido com os vilões da novela, Susana não pode ser considerada uma megera odiosa e perversa. Pelo contrário, teve bons momentos de humor e nem sempre suas armações deram certo. Quase uma vilã de animação.

A lamentável ausência de Tarcísio Meira e o brilho de Natália do Valle

Darcy (Thiago Lacerda), Lorde Williamson (Tarcisio Meira) e Lady Margareth (Natalia do Vale) de Orgulho e Paixao
Darcy (Thiago Lacerda), Lorde Williamson (Tarcísio Meira) e Lady Margareth (Natália do Vale) de Orgulho e Paixão (Divulgação/TV Globo)

No papel de Lorde Williamson, pai de Darcy e Charlotte (Isabella Santoni), Tarcísio Meira demorou cerca de um mês para dar o ar da graça na novela. E infelizmente teve de sair dela poucas semanas depois, em virtude de dificuldades de saúde. O ator passa por problemas pulmonares. Para fazer suas vezes, foi criada uma cunhada má, Lady Margaret Williamson (Natália do Valle). A atriz entrou no meio da história e já chegou querendo obrigar o sobrinho a se casar com sua filha Brianna (Bruna Spínola). Margaret evocava um antigo compromisso que “prometeu” um ao outro.

Chegada de Natália do Vale movimenta Orgulho e Paixão

Feminismo e racismo: temas fortes tratados com suavidade, mas sem descompromisso

Barao (Ary Fontoura), Tenoria (Polly Marinho) e Estilingue (JP Rufino) de Orgulho e Paixao
Barão (Ary Fontoura), Tenória (Polly Marinho) e Estilingue (JP Rufino) de Orgulho e Paixão (Divulgação/TV Globo)

Com uma história centrada em figuras femininas fortes e de personalidades variadas, seria de se esperar que Orgulho e Paixão aproveitasse a oportunidade para tratar de igualdade de gênero. E de fato a novela o fez, sem pieguismos e com seriedade, sem perder o tom do horário. Não apenas Elisabeta fez as vezes de feminista, outras personagens também. Merece destaque, além de Julieta, a jovem Mariana. Ela se passou por homem (Mário) para ingressar no mundo do automobilismo.

Outra ferida da sociedade abordada pela história foi o preconceito racial. O Barão de Ouro Verde não gostava de negros, e para ele foi um choque saber que tinha uma filha negra bastarda, Tenória (Polly Marinho). E um neto, Estilingue (JP Rufino).

Após um trabalho incompreendido, Além do Horizonte (2013/14), Marcos Bernstein mostrou que sabe contar uma história mais convencional sem, no entanto, acomodar-se no óbvio. Orgulho e Paixão não foi um grande estouro de audiência, mas também não fez feio nos números. Credibilizou o autor para novas investidas no gênero e mostrou uma vez mais que a novela das 18h não precisa ser uma “novelinha”. E que na intenção de não sê-lo não precisa abusar de ingredientes inadequados ao horário.

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