Clara (Bianca Bin) de O Outro Lado do Paraiso
Clara (Bianca Bin) de O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/TV Globo)

Chegando ao fim na noite de hoje (11), a novela O Outro Lado do Paraíso é daquelas tramas que faz o público amar e odiar. Sucesso de audiência, a história de Walcyr Carrasco foi marcada, também pelas incoerências e remendos da história, regados a puro humor non sense involuntário que só o autor consegue proporcionar.

O penúltimo capítulo deixou isso bem claro. O julgamento de Sophia (Marieta Severo) ocupou quase o episódio todo e foi marcado pela atuação teatral do advogado de defesa da vilã. Paulo Betti pareceu reencarnar o Téo Pereira, o fofoqueiro de Império, e disparou frases para culpar uma testemunha, Clara (Bianca Bin). Mas tudo bem, novela não é documentário e é preciso saber voar, como já nos ensinou Gloria Perez no passado.

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O problema é que O Outro Lado do Paraíso abusou demais da capacidade de voar de seu espectador. Ao longo de toda a trama, várias fantasias absurdas aconteceram. O eixo da história já é frouxo e incongruente: Clara decide se vingar de todos os envolvidos que a colocaram num hospício. A “cabeça” do plano era Sophia que, mais à frente, revelou-se uma serial killer de primeira, retalhando quem a incomodasse com sua indefectível tesoura. Sendo assim, por que diabos a vilã preferiu jogar Clara num hospício, de onde ela poderia sair e simplesmente acabar com a festa de Sophia, ao invés de simplesmente matá-la a tesouradas? Claro, se ela fizesse isso não haveria novela, mas são estas contradições no perfil dos personagens que enfraqueceram a argumentação do enredo.

Além disso, a vingativa Clara orquestrou vinganças que não foram muito bem-sucedidas. Samuel (Eriberto Leão), homossexual que escondia sua condição, foi “arrancado do armário”, se sentiu humilhado numa tarde, mas à noite já estava saindo para jantar com o namorado Cido (Rafael Zulu). Seguiu exercendo a medicina e tocando sua vida. Já para se vingar do juiz Gustavo (Luís Mello), a mocinha simplesmente deduziu que ele era o dono misterioso do bordel de Pedra Santa. Ele foi desmascarado e deixou de ser juiz, mas ficou por isso mesmo. Seus outros crimes foram esquecidos. A vingança principal, que seria contra Sophia, também foi fraca. Ela simplesmente descobriu seus assassinatos e a denunciou. Apenas o delegado pedófilo Vinícius (Flavio Tolezani) teve punição à altura: foi descoberto, julgado e condenado pelos seus crimes. Acabou assassinado na cadeia.

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Além da história de Clara, O Outro Lado do Paraíso tinha uma outra história principal forte, a saga de Beth (Gloria Pires). Acusada de ter assassinado o amante Renan (Marcello Novaes), ela é obrigada pelo sogro do mal Natanael (Juca de Oliveira) a forjar sua própria morte. Tornando-se Duda, ela se entrega ao vício do álcool e, mais adiante, torna-se sócia do bordel de Pedra Santa. É quando ela descobre ser a mãe de Clara. No entanto, depois disso, sua história cai vertiginosamente, tornando-se um remendo estranho. Duda descobre que Renan não morreu, reencontra a família, volta a ser Beth, mas é rejeitada pela filha Adriana (Julia Dalávia), e seu alcoolismo retorna com força. Mesmo assim, ela se cura quase milagrosamente e se torna coadjuvante de luxo.

A novela também pecou quando tentou fazer merchandising social. Gael (Sergio Guizé) batia na esposa Clara, no início da história, mas se redimiu e terá direito a final feliz. Ou seja, reforçou a impressão de que as mulheres oprimidas por seus maridos violentos podem esperar uma mudança de comportamento. A saga de Estela (Juliana Caldas), que trataria do interessante tema do nanismo, não funcionou, já que a história dela enveredou para um triângulo amoroso sem graça e aborrecido. A pedofilia teve um bom espaço, mas a abordagem quase botou tudo a perder ao passar a mensagem de que o trauma de Laura (Bella Piero) poderia ser curado com sessões de couch (?). Isso sem falar no reforço ao preconceito contra homossexuais no pretenso núcleo de humor de Samuel. Sem graça nenhuma e um desserviço.

O ponto forte de O Outro Lado do Paraíso foi mesmo sua estrutura narrativa, episódica, que foi capaz de promover vários pontos de clímax no decorrer da novela. As viradas, normalmente marcadas pela conclusão de uma das vinganças de Clara, mantinham o interesse da audiência lá em cima. Neste ponto, Walcyr Carrasco foi feliz, pois conseguiu contar várias histórias, mas mantendo uma linha narrativa principal, a vingança de Clara. Assim, ele conseguiu construir uma história mais redonda que sua incursão anterior no horário nobre, Amor à Vida, na qual começou contando a história de Paloma (Paolla Oliveira) e terminou contando a história de Félix (Mateus Solano). Mesmo assim, O Outro Lado do Paraíso foi uma novela bastante irregular, que sai de cena sem deixar saudades.

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