Amalia (Marina Ruy Barbosa) de Deus Salve o Rei
Amália (Marina Ruy Barbosa) de Deus Salve o Rei (Divulgação/TV Globo)

Muito já se falou sobre os motivos que fizeram com que Deus Salve o Rei não alcançasse os resultados esperados pela Globo. A audiência da trama de Daniel Adjafre não é nenhum desastre, mas as oscilações nos números demonstram que a novela não consolidou um público, algo que preocupa a emissora. Por isso, a história medieval passou pela intervenção da direção de teledramaturgia do canal e, recentemente, até ganhou um supervisor de texto, o experiente Ricardo Linhares.

Dentre os motivos apontados para que Deus Salve o Rei não tenha decolado está o enredo, que parece não sair do lugar, ou dos protagonistas, que não são carismáticos e nem têm funções muito claras. O casal principal, Afonso (Rômulo Estrela) e Amália (Marina Ruy Barbosa), está junto desde o começo da história e não há conflitos que surjam para separá-los. Ou seja, nem ao menos há um romance proibido pelo qual o público devia torcer.

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Mas não é só isso. Na verdade, um dos principais problemas de Deus Salve o Rei está na sua concepção. A trama foi criada por Daniel Adjafre para ser uma história medieval, mas sem nenhum propósito claro sobre os motivos que levaram a esta decisão. Os poucos conflitos da obra parecem colchas de retalhos de folhetins diversos, e a grande maioria poderia se passar em qualquer cenário. Ou seja, não há uma explicação que justifique a trama se passar no período medieval. A única referência ao período está na luta pelo trono e pelo poder, mas ela aparece de maneira tão branda na novela que não faria tanta diferença se não estivesse ali.

Mesmo não se passando no mesmo período histórico de Que Rei Sou Eu?, muito se comparou Deus Salve o Rei ao clássico de Cassiano Gabus Mendes. O veterano novelista criou uma trama passada nos tempos da Revolução Francesa que mostrava um reino fictício, Avilan, e seus conflitos. O propósito era claro: Avilan era uma metáfora do Brasil, e a novela brincava com elementos de histórias de capa e espada para fazer uma crítica política e social. Este foi o mesmo propósito que levou Mário Prata a criar Bang Bang, uma novela (fracassada) que se passava no Velho Oeste americano, mas falava sobre o Brasil, de maneira alegórica (ao menos inicialmente).

Já em Deus Salve o Rei não há esta pretensão. A novela até poderia tratar de temas contemporâneos, já que a falta de água do reino de Montemor é o motivo para que se estabeleçam as relações entre os dois reinos principais do enredo. Mas esta temática também aparece de maneira tímida. Fora isso, há conflitos bélicos que não levam para lugar nenhum, e uma disputa pelo trono que, na verdade, inexiste. A novela não assumiu a capa de humor para brincar com os elementos históricos, muito menos o clima de contos de fadas, que poderia funcionar como um romance açucarado.

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Por conta desta falha de concepção, Deus Salve o Rei se tornou, apenas, uma novela com um cenário suntuoso e diferente. Na prática, é uma trama que enche os olhos com lindos efeitos de computação gráfica (não me lembro de alguma outra trama da Globo que usou tantos cenários virtuais para ambientes internos, e com este grau de excelência), mas que não conta uma história, de fato. Tem uma boa direção e atores interessantes, dos quais se destacam Johnny Massaro (o príncipe Rodolfo) e Tatá Werneck (único alívio cômico realmente engraçado da trama). E só. Valeu como experiência, mas ficou claro que não deu certo.

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