Silvio de Abreu dramaturgia Globo
Silvio de Abreu (Divulgação)

Na semana passada, foi divulgada a notícia de que Guel Arraes, diretor da Teledramaturgia Semanal (séries e seriados) da Rede Globo, entregou o cargo devido a seu desejo de se dedicar novamente ao dia a dia do aspecto artístico dos projetos e deixar de lado o burocrático. Com isso, Silvio de Abreu, que já vinha respondendo pela área de Teledramaturgia Diária (novelas e minisséries) desde 2015, passou a acumular as duas áreas, e a partir desta segunda, dia 5 de março, terá a colaboração de Glória Perez na supervisão da Casa dos Roteiristas, com seu time permanente de autores que desenvolvem projetos para a emissora.

O momento é propício para uma análise do trabalho de Silvio, hábil novelista, na diretoria de Teledramaturgia Diária, já que os bons expedientes desta podem perfeitamente servir de base para iniciativas na nova diretoria que o profissional passou a acumular, bem como os problemas vividos podem servir de base para os desafios que vêm pela frente.

Dois pontos positivos:
– A renovação dos autores titulares
Ao mesmo tempo em que os escritores veteranos tiveram seu espaço assegurado e prosseguiram desenvolvendo novos projetos, Silvio de Abreu deu nos últimos anos a vários profissionais a oportunidade de se tornarem autores titulares. Júlio Fischer e Suzana Pires (que assinaram Sol Nascente com Walther Negrão), Vincent Villari (que assinou A Lei do Amor com Maria Adelaide Amaral), Maria Helena Nascimento (Rock Story), Thereza Falcão e Alessandro Marson (Novo Mundo), Ângela Chaves e Alessandra Poggi (Os Dias Eram Assim) e Cláudia Souto (Pega-pega, 2017) foram os primeiros. Com a dupla Paula Amaral e Izabel de Oliveira desenvolvendo Verão 90 Graus (que foi adiada, mas permanece na fila das 19h para 2019), são onze novos autores para assegurar com seu talento e novas ideias o futuro da telenovela. Desde 2004, quando assinou embaixo da sinopse de Chocolate, de João Emanuel Carneiro, que sob sua supervisão se tornou Da Cor do Pecado e foi um grande sucesso, Silvio se dedica à tarefa de “bancar” projetos de novos autores, sejam eles estreantes no gênero, porém egressos de outras áreas como o cinema ou as minisséries, ou (mais comum) coautores e colaboradores que ganham assim sua chance de se tornarem líderes de equipe.


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– A diminuição da duração das novelas
Em 2017, Silvio de Abreu determinou que todas as novelas da casa deveriam durar menos, tanto em número de capítulos quanto em tempo de arte (duração dos capítulos no ar, descontados os intervalos comerciais). Assim, conforme as histórias a serem contadas, as novelas podem ter de 150 a 170 capítulos. Os títulos da faixa nobre agora raramente passam dos 55 minutos, e os dos primeiros horários não chegam a 50. Essa medida foi muito boa para todos – autores, diretores, elenco, equipe, telespectadores –, já que capítulos menores podem ser escritos e gravados mais rapidamente, exigem menos personagens (o que colabora para maior agilidade e riqueza narrativa) e cansam menos o público.

Dois pontos negativos:
– A imprevisibilidade da fila das produções vindouras
É sabido que a Globo costuma se planejar com duas ou três novelas de vantagem em relação às produções que estão no ar, até para melhor adequar toda a grade e os profissionais que serão lotados em cada equipe. Mas nos últimos anos houve uma série de adiamentos, antecipações e cancelamentos que, se não forem bem avaliados, podem comprometer o resultado das novelas ou minisséries envolvidas. Alguns exemplos: a novela O Homem Errado, que marcaria a estreia de Duca Rachid e Thelma Guedes como autoras das 21h, foi cancelada em favor de O Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco; Os Dias Eram Assim, que seria uma novela das 18h em 2018, foi antecipada para ocupar a faixa das 23h em 2017, mudando com isso (nem tanto) seu teor e com isso impactando no trabalho das autoras; Tempo de Amar, de Alcides Nogueira, acabou entrando no ar uma novela antes do previsto, o que acarretou mudanças de ambientação temporal; Deus Salve o Rei, de Daniel Adjafre, furou a fila das 19h.

– O teor das interferências no trabalho dos autores
Claro que a novela é feita para entreter o maior público possível e, com isso, obter a maior audiência possível e ser o mais rentável possível para a emissora e seus anunciantes. O próprio Silvio de Abreu cunhou anos atrás uma frase conhecida: “A televisão é honesta: a cada 15 minutos ela interrompe os programas para dizer: ‘Nós estamos aqui para vender extrato de tomate e sabonete’”. Mas especialmente no percurso árduo de uma telenovela, uma mudança feita precipitadamente pode colocar ainda mais a coisa a perder – em que pese a habilidade necessária aos autores para levarem a cabo mudanças encomendadas pela emissora sem jogar no lixo a história imaginada. Babilônia e A Lei do Amor, para citar dois dos últimos grandes problemas que a emissora enfrentou, acabaram esvaziadas ante dificuldades de aceitação de tramas e personagens. Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho, respectivamente autor e diretor de Velho Chico, manifestaram publicamente a contrariedade a muitas indicações de mudanças ordenadas por Silvio – Luiz Fernando saiu da emissora logo após o fim da novela.