Vade Retro estreia com clima de desenho animado e excelente atuação de Tony Ramos

Tony Ramos
Tony Ramos é Abel Zebu em Vade Retro (Divulgação/ TV Globo)

No currículo de Fernanda Young e Alexandre Machado não faltaram boas comédias. Os autores e roteiristas são casados e trabalham juntos há anos, e somente na tela da Globo foram responsáveis pelas séries de comédia: Os Normais, Os Aspones, Minha Nada Mole Vida, Separação?!, Macho Men, O Sistema, Como Aproveitar o Fim do Mundo e a mais recente Vade Retro que estreou na noite desta quinta-feira (20).

O humor inteligente, com tiradas rápidas inseridas no texto faz parte do estilo dos autores e se manteve presente na estreia de Vade Retro, que fala sobre a luta do bem contra o mal apoiado sobre o pano de fundo da religiosidade.

Personagens bíblicos fazem parte do imaginário popular sobretudo aqueles que não são considerados humanos e é comum que façamos nossa própria representação acerca deles. Cada um imagina Deus de uma forma, assim como cada um tem sua visão sobre como o Diabo se parece. Uns dizem que ele é vermelho, tem chifres e um rabo pontudo, outros já dizem que ele surge para as pessoas sob a pele de um homem muito belo, mas na nova série de comédia da Globo, o Diabo surge na pele de Tony Ramos. Em nenhum momento, o texto deixa claro que ele seja o anjo caído, mas provoca o telespectador através dos nomes dos personagens.

Abel (Tony Ramos) e Celeste (Mônica Iozzi) em Vade Retro (Divulgação/ TV Globo)
Abel (Tony Ramos) e Celeste (Mônica Iozzi) em Vade Retro (Divulgação/ TV Globo)


Tony é Abel Zebu, um empresário misterioso e sombrio e que apresenta palestras motivacionais baseadas no medo e procura Celeste, uma ingênua advogada interpretada por Mônica Iozzi, para que ela lhe ajude a se divorciar legalmente de sua esposa Lucy Ferguson, vivida por Maria Luísa Mendonça. Celeste atrai certa visibilidade já que foi a criança beijada pelo papa João Paulo II, quando ele esteve no Brasil em 1991, e sempre se questiona sobre a necessidade de suas orações. É uma personagem doce, com um quê de infantil e que tenta se provar como mulher adulta e bem resolvida, mas falha nessas questões. Outra personagem que merece atenção é Leda (Cecília Homem de Mello) a divertida e religiosa mãe de Celeste, que morre de orgulho por ela ter sido beijada pelo papa. A fofura dela remete à simplicidade de muitas avós gerando identificação imediata. 

O programa não tem o tom tão ácido quanto o de Os Normais, ou Surtadas na Yoga (série escrita por Fernanda e Alexandre para o GNT) mas tem a mesma agilidade, é mais leve e brinca com os estereótipos das polarizações pessoais. Celeste é o oposto de Lucy, e por sua vez Abel é o oposto de Davi (Juliano Cazarré) namorado da protagonista. É uma comédia que faz rir em momentos pontuais muito mais pela atuação de seus intérpretes que pelo roteiro em si (pelo menos nesta estréia), afinal onde veríamos por exemplo Tony Ramos cantando e dançando uma música do Sepultura ou falando sobre aumento peniano? Por falar em Tony Ramos, ele divide o protagonismo com Mônica Iozzi, e domina com maestria cada uma de suas expressões faciais que o fazem parecer as vezes sério, as vezes assustador, mas o carisma ele parece ter herdado de seus outros personagens “boa praça” mesmo interpretando uma figura vilanesca. 

O mais interessante da produção é perceber na estética utilizada referências a histórias em quadrinhos e no cinema. As cenas tem um aspecto escuro e azulado deixando a sensação no telespectador de estar diante de um verdadeiro inferno. A cidade de São Paulo onde a história se passa é estilizada tal qual uma animação do Tim Burton, com pouco contraste e cores frias, e isso pode incomodar os mais exigentes, já que muitas cenas aparentam terem sido gravadas em chromakey tamanha a quantidade de efeitos de computação gráfica empregados.