Na TV, Aldo – Mais Forte que o Mundo funcionou melhor do que no cinema

Aldo - Mais Forte Que o Mundo
Aldo - Mais Forte Que o Mundo (Divulgação)

Mais uma vez, a Globo recorre ao seu braço cinematográfico para preencher sua grade de início de ano. A emissora exibiu em seu horário nobre, nesta primeira semana de 2017, a microssérie Aldo – Mais Forte que o Mundo, uma versão do longa-metragem Mais Forte que o Mundo, do cineasta Afonso Poyart (do interessantíssimo 2 Coelhos), que foi lançado nos cinemas brasileiros no ano passado. A nova versão nada mais é que o próprio longa acrescido de cenas inéditas, incluindo depoimentos dos personagens reais, já que a trama é a história do lutador de MMA José Aldo Junior.

A escolha do título revelou-se acertada. O bom resultado de audiência alcançado pela produção mostrou que a história de vida de Aldo tem um interessante poder de mobilização. E não é para menos. Afinal, a trajetória de Aldo, aqui vivido por um José Loretto muito bem preparado, é cheia de nuances típicas de um bom roteiro de ficção. Aldo tem uma origem de pobreza e dificuldades. Vivia em Manaus, tem um passado de badernas (costumava distribuir pauladas aleatoriamente pelas ruas) e problemas com o pai alcoólatra. Assim que a situação familiar se torna insustentável, Aldo resolve tentar a vida no Rio de Janeiro, onde encontra amigos, um novo amor, e tem a chance de treinar junto aos lutadores de muay thai. Uma ajudazinha do destino o coloca como um lutador substituto, o que lhe abre as portas do MMA. E, assim, Aldo se torna um campeão.

Ou seja, a microssérie narrou a típica história do vencedor, que conseguiu transformar as dificuldades da vida e canalizá-las para uma carreira que se mostrou vitoriosa. E, curiosamente, a série ressaltou bem a diferença entre narrativa televisiva e cinematográfica. Isso porque Aldo funcionou muito melhor como série de TV do que como longa de cinema. Não que o filme seja ruim, mas, convenhamos, é bem mediano. Bebe da fonte de filmes como Rocky Balboa ou outros tantos longas de lutas e glórias. Porém, na TV, a saga de José Aldo, desde a origem sofrida até a consagração, funcionou muito bem. Afinal, é a típica trama folhetinesca, com um ponto de partida dificultoso, os percalços do caminho percorrido e o final feliz, tudo ali, bem temperadinho e irresistível. A série ainda ganhou muito com os depoimentos das figuras reais que costuravam a trama, dando um toque documental à obra. O espectador pode até não gostar de MMA (eu mesmo, confesso, não sou muito fã), mas é inegável que a temática é uma boa metáfora de superação. Soa até piegas, mas Aldo – Mais Forte que o Mundo conseguiu passar sua mensagem positiva.


Transformar filmes em microsséries é uma prática cada vez mais comum na Globo e Globo Filmes. Hoje, vários longas produzidos já são pensados para o formato, ou seja, sequências extras já são rodadas durante as filmagens justamente para entrar na série, quando o longa estrear na TV. Trata-se de uma prática que tem seus prós e contras: ao mesmo tempo em que amplia o público de determinado produto (afinal, a TV proporciona uma plateia maior do que qualquer bilheteria), a prática também oferece à audiência uma produção com gosto de prato requentado. Mas, no caso específico de Aldo, a estratégia mostrou-se acertada.

O que também torna esta prática interessante é o fato de que estas produções colocam em evidência na tela da Globo rostos de fora da emissora. Quem assistiu Aldo, pôde ver no canal figuras como Rafinha Bastos (que foi muito bem vivendo Marcos Loro, amigo de Aldo), Milhem Cortaz (que fez fama no cinema, em inúmeras produções, mas na teledramaturgia é ator contratado da Record há anos, e atualmente está no ar em A Terra Prometida) e Paloma Bernardi (que acumulou trabalhos na Vênus Platinada, mas hoje defende as cores da Record e também está em A Terra Prometida).

Goste-se ou não do formato, fato é que a prática de transformar filmes em microsséries está longe de acabar na Globo. E a boa audiência registrada por Aldo – Mais Forte que o Mundo credencia o canal a seguir investindo nestas produções híbridas. Sem dúvidas, é uma ótima maneira de aumentar a variedade da programação de início de ano, normalmente sujeita às reprises. Aldo – Mais Forte que o Mundo foi uma boa série, e foi bem-sucedida na missão de abrir a programação 2017 da Globo.

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10 AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .