Escrava Mãe foi a melhor novela da Record em anos!

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Escrava Mãe (Divulgação)

A Record atirou no que viu e acertou no que não viu. Escrava Mãe foi uma novela que passou por tantos percalços antes de estrear, que muitos passaram a duvidar da qualidade da história de Gustavo Reiz, que pretendia narrar a trajetória da mãe da famosa Escrava Isaura. A trama foi aprovada quando se buscava uma substituta para Vitória, novela de Christiane Fridman que não conseguiu ampliar os índices de audiência das novelas da Record, em baixa devido à sequência Máscaras, Balacobaco, Dona Xepa e Pecado Mortal. Entretanto, a novela perdeu a vaga quando a direção da emissora decidiu transformar o projeto da minissérie Os Dez Mandamentos em novela. Aí, ficou decidido que Escrava Mãe seria sua sucessora e a trama entrou em produção, realizada pela Casablanca e gravada em Paulínia, no interior de São Paulo. Depois, nova mudança: com o sucesso de Os Dez Mandamentos, a emissora decidiu dedicar a faixa das 20h30 apenas às produções bíblicas e, mais uma vez, Escrava Mãe foi deixada de lado.

Enquanto isso, as gravações da trama prosseguiam, e foram tantos adiamentos e indefinições sobre sua exibição que Escrava Mãe foi totalmente concluída sem estrear. Até que a direção da Record, finalmente, decidiu abrir a faixa das 19h30 para lançar a novela. E a surpresa foi altamente positiva: Escrava Mãe mostrou-se a melhor novela da emissora em anos. O Ibope também respondeu positivamente, revelando que a Record acertou em cheio ao reavivar a faixa de novelas das 19h30. Horário, aliás, que no passado foi ocupado por A Escrava Isaura, novela de Tiago Santiago e Anamaria Nunes e dirigida por Herval Rossano, que marcou a retomada de produção de novelas da emissora.

Escrava Mãe foi um acerto em todos os sentidos. O texto de Gustavo Reiz foi correto, redondo e trouxe os principais elementos do bom e velho folhetim sem pudores. A trama narrou a saga da escrava Juliana (Gabriela Moreyra), fruto de um estupro que vitimou sua mãe, a também escrava Luena (Nayara Justino). Criada pela tia Joaquina (Zezé Motta), a jovem torna-se mucama da família Avelar. Ali, ela se torna amiga de uma das herdeiras, Teresa (Roberta Gualda), enquanto desperta o ódio da outra, Maria Isabel (Thais Fersoza), a vilã da história. Ela se apaixona por Miguel (Pedro Carvalho), um português que está em busca de pistas sobre a morte misteriosa de seu pai e acaba vivendo um amor proibido com ela. Miguel ainda é o pivô de mais conflitos entre Juliana e Isabel, já que a vilã arma para se casar com o mocinho.


Ou seja, Escrava Mãe bebeu do folhetim clássico do início ao fim, apostando fundo numa história de amor proibido, cheia de idas e vindas e reviravoltas, além da ousadia de um final trágico (que já era esperado, mas, mesmo assim, deu um nó no coração). Além disso, tratou com muita propriedade de seu pano de fundo, o período da escravidão. Com uma carpintaria bem delineada, Escrava Mãe contou ainda com tramas paralelas interessantes, e que não perdiam de vista a história principal. Entre elas, destaque para a saga de Filipa, que inicialmente se disfarçava de homem para circular pela boemia da Vila de São Salvador, até que se apaixona pelo poeta Átila (Léo Rosa), partindo daí uma envolvente história de amor. Outro núcleo que rendeu boas histórias foi o da taberna de Rosalinda Pavão (Luiza Tomé), que movimentou a trama com sua rixa com a impagável Urraca (Jussara Freire), uma baronesa falida. Além disso, Rosalinda viveu uma divertida relação de gato e rato com o Capitão Loreto Veloso (Junno Andrade), que culminou em mais uma envolvente história de amor.

Escrava Mãe ainda ganhou mais substância na reta final, quando passou a “preparar o terreno” para A Escrava Isaura. Primeiro, com o nascimento de Leôncio (Théo Salomão), que mostrou ao público como aquela criança se tornaria um dos maiores vilões de todos os tempos. Depois, pelo aparecimento de outras figuras conhecidas da saga de Isaura, como Belchior, e o nascimento da própria, que coroou os episódios finais. A pequena ainda acabou sequestrada por Isabel, no clímax da trama.

Escrava Mãe também foi feliz com a escalação de seu elenco, todos muito bem em cena. Gabriela Moreyra, prata da casa, não decepcionou com sua primeira protagonista, e o ator português Pedro Carvalho foi uma grata revelação. Isso sem falar em veteranos como Luiza Thomé, Jussara Freire, Luiz Guilherme, Bete Coelho e Jayme Periard, entre outros, que emprestaram suas credibilidades à obra. Thaís Fersoza também se mostra cada vez mais madura e roubou a cena como a vilã Isabel. Escrava Mãe também contou com uma direção segura de Ivan Zettel e uma produção impecável da Casablanca, que abusou da fotografia naturalista, dando um ar cinematográfico aos takes. Sem dúvidas, uma das novelas mais bem produzidas da Record.

Uma pena que uma novela com tantos êxitos como Escrava Mãe seja substituída pela enésima reprise de A Escrava Isaura. Por melhor que seja a novela de 2004, protagonizada por Bianca Rinaldi, sua produção é muito mais modesta que a de Escrava Mãe, e as comparações serão inevitáveis. Pode ser uma experiência interessante seguir acompanhando a trama, já que a novela é continuação direta da anterior, mas a faixa das 19h30 da Record, recém-inaugurada, merecia ser continuada por uma produção inédita, até para consolidar seu público. Que Belaventura, também escrita por Gustavo Reiz e que deve substituir A Escrava Isaura, não demore muito a estrear.