Dois Irmãos estreia com capítulo lento mas trama chama atenção

Halim (Antonio Calloni) em cena de Dois Irmãos (Divulgação/ TV Globo)

Há algum tempo a Globo inseriu o selo Assista a Esse Livro em algumas de suas produções presentes do catálogo do aplicativo Globo Play, destacando que estas, são obras baseadas na literatura nacional. Para reforçar o conceito sobretudo social de incentivar a leitura e fomentar a curiosidade literária através de uma obra televisiva (o que nem sempre se aplica) nasceu Dois Irmãos, divulgada como adaptação de um grande clássico da literatura. Dois Irmãos, de Milton Hatoum é realmente um livro famoso, mas ainda não pode ser considerado um clássico até mesmo pela data de sua primeira publicação no ano 2000.

Não pretendo aqui fazer uma comparação entre o livro e a minissérie, pelo contrário, mas li o livro procurando me ambientar melhor acerca dos personagens e seus enredos, e ao assistir o primeiro capítulo de Dois Irmãos na TV tive a real sensação de estar vendo televisionado tudo o que eu havia lido tamanha fidelidade do roteiro escrito por Maria Camargo. Com as devidas alterações que um produto televisivo necessita, todos os elementos estão lá.

Zana (Eliane Giardini) em Dois Irmãos (Divulgação/ TV Globo)
Zana (Eliane Giardini) em Dois Irmãos (Divulgação/ TV Globo)

 A história não visa apenas contar a trajetória de dois irmãos que nutrem rivalidade um pelo outro, pois essa já foi contada inúmeras vezes inclusive na Bíblia, mas a trajetória da rivalidade desde o nascimento da família até o seu fim. A imigração libanesa no Brasil que teve início no final do século XIX possibilitou que muitos imigrantes se espalhassem pela Amazônia, Rio de Janeiro e São Paulo em busca de perspectivas que seu país de origem não oferecia. Eram quase sempre mascates, que vendiam de tudo e desenvolveram o comércio na Amazônia, após o ciclo da borracha. E assim foi com Halim (Bruno Anacleto/ Antonio Calloni/ Antonio Fagundes), o jovem libanês que chega a Manaus e se encanta pela também libanesa Zana (Gabriela Mustafá), um homem humilde e persistente, que sempre colocou num pedestal a mulher amada e viu com desânimo o nascimento dos filhos, que lhe tirariam o prazer de uma vida a dois com a esposa.

Yaqub (Lorenzo Rocha), Zana (Juliana Paes) e Omar (Enrico Rocha) (Divulgação/ TV Globo)
Yaqub (Lorenzo Rocha), Zana (Juliana Paes) e Omar (Enrico Rocha) (Divulgação/ TV Globo)


O narrador personagem deu à este capítulo de estreia o tom exato que a história pedia, com inserções precisas que só contribuíram para o desenvolvimento do enredo. Zana (Juliana Paes) é sem dúvida o fio condutor da história, e dela parte toda a criação daquele contexto familiar. A mulher explosiva, decidida, fogosa e ao mesmo tempo devota a Deus, carrega no olhar toda a alegria, e ao mesmo tempo desgosto e melancolia, num misto de sentimentos e camadas que Juliana Paes soube transmitir de forma certeira para o telespectador. Ela é a mãe arrependida que busca dar amor tardio ao filho que ela preferiu enviar para longe. Juliana Paes de hoje é diferente da Juliana Paes de Laços de Família. Ela cresceu em beleza e talento e merece todas as palmas.

Outros personagens em menor carga, também exerceram seu magnetismo nesta estreia, como Yaqub (Lorenzo Rocha/ Matheus Abreu) e Omar (Enrico Rocha/ Matheus Abreu) que mesmo sendo um iniciante na TV consegue tanto cativar com seu calado Yaqub como irritar com seu inconsequente Omar, sem contar sua semelhança física incrível com Cauã Reymond que interpreta os gêmeos em idade adulta. Vimos ainda, Maria Fernanda Cândido numa caracterização que a deixou quase irreconhecível como Estelita. O ritmo do capítulo foi quebrado pela história pregressa de Halim e Zana, que deixou tudo mais lento e contemplativo deixando o clímax para o final do capítulo: A briga que aflorou a rivalidade entre os gêmeos. A propósito, contemplação parece ter sido a palavra-chave do capítulo. A direção artística caprichada de Luiz Fernando Carvalho é sempre um primor que torna a experiência televisiva quase cinematográfica, movimentos de câmera, cores, e um estilo que ele vem empregando em suas obras desde Os Maias provam que ele é um dos diretores da Globo que mais se preocupam com a qualidade estética de seus produtos. A riqueza de detalhes me impressionou, assim como a trilha sonora bem marcada e alguns momentos, pesada.

Dois Irmãos é uma minissérie que promete atrair o público tanto quanto Justiça ainda que seja mais carregada no drama devido ao teor de tragédia da obra, com qualidade igual.