Beatriz (Bruna Marquezine) e Odete (Cássia Kiss) em Nada Será Como Antes (Estevam Avellar/ TV Globo)

Nada Será Como Antes chegou ao fim nesta terça (20). O seriado tinha como proposta apresentar o início das transmissões televisivas no Brasil, bem como as dificuldades técnicas da época mesclando uma história de amor entre alguns personagens, mas a missão principal parece ter se dissolvido com o passar dos episódios. A história da TV brasileira acabou se tornando bem menos que um pano de fundo para que os personagens pudessem mostrar seu enredo, alguns inclusive meio batidos. Toda a década de 50 foi representada pelos ideais e costumes que imperavam na ocasião.

O episódio final foi marcado pelos desfechos de Saulo (Murilo Benício), Verônica (Débora Falabella) e da família Azevedo Queiróz. Após a morte de Beatriz (Bruna Marquezine), o país entrou num luto pela estrela de telenovelas, e a muito bem escrita cena do velório da mesma, serviu de pontapé para tudo o que iria acontecer posteriormente. Verônica agiu durante toda a série como uma mulher moldada para aquela época, mas que ousava pensar à frente, foi a representação feminina no contexto da busca pela igualdade de direitos, enquanto Beatriz buscava a liberdade.  Débora Falabella encarnou bem o papel da mulher que é subjugada por trabalhar fora, por trabalhar como atriz – já que por muito tempo a profissão era vista como um tipo de prostituição de luxo, por ter um filho fora do casamento, e por tentar se manter sem um homem. O fim da década de 50 foi o início da transformação do que a própria série tratou de chamar em sua narração final de “mulher no papel de destaque”, e Verônica significou exatamente isto perante a Saulo. Ela o tinha em suas mãos pela racionalidade de suas ações.

Verônica (Debora Falabella) e Saulo (Murilo Benício) em Nada Será Como Antes (Estevam Avellar/ TV Globo)
Verônica (Debora Falabella) e Saulo (Murilo Benício) em Nada Será Como Antes (Estevam Avellar/ TV Globo)

Saulo foi o outro agente condutor do último episódio, mesmo com sua falta de sensibilidade ao se preocupar mais com o potencial de sucesso de uma telenovela gravada em videoteipe do que propriamente com sua principal estrela sendo velada a poucos metros, ele acusou Pompeu (Osmar Prado) publicamente pelo atentado à TV Guanabara e a morte de Odete (Cássia Kiss), dando abertura a uma guerra onde só houveram perdedores. Guiado pela culpa de Julia (Letícia Colin) diante da morte de Beatriz, ambos expuseram os crimes do patriarca da família Azevedo Queiroz que ficou fadada à desordem mental de seus integrantes. Beatriz surgiu na vida de todos e ocupou o lugar de único elo de ligação naquela família, e sua morte foi a separação definitiva de laços não sanguíneos. Saulo durante toda a série agiu como reflexo do senso comum masculino machista (que infelizmente não ficou naquela época), que julga, se sente superior seja pelo seu sexo, seja pelo seu dinheiro, e faz da ex-esposa algo de sua propriedade. Mimado, o personagem teve seu final feliz ao lado da amada, mas somente quando ele permitiu que ela assumisse as rédeas da relação em busca daquilo o que ela sempre lutou: igualdade, seja na vida profissional, seja na pessoal, na criação de seu filho.

A trama de Rodolfo (Alejandro Claveaux) foi a mais mal elaborada de toda a série. A homossexualidade foi apenas pincelada de forma rasa e superficial, ganhando contornos mais fortes no episódio final como forma de apressar acontecimentos rumo ao desfecho. No mais valia televisivo, ele escolheu ter uma carreira e um casamento aberto, a ter sua verdade exposta, afinal se ainda hoje atores gays precisam se esconder para não perderem papéis, imagine numa década em que ser homossexual era considerado doença.

Verônica (Débora Falabella) em Nada Será Como Antes (Estevam Avellar/ TV Globo)
Verônica (Débora Falabella) em Nada Será Como Antes (Estevam Avellar/ TV Globo)

Durante o episódio vimos a tentativa dos produtores de televisão de fazer uma novela realista, com personagens menos maniqueístas, e uma imposição do patrocinador que vetava um beijo entre personagens de etnias diferentes. Na divertida cena, Saulo driblou o veto, mas a mesma serviu como reflexão para duas frentes: A TV brasileira precisa sim, evoluir muito e passar valorizar o trabalho dos atores negros melhorando a escalação de seus produtos já que a telenovela nasceu para ser um reflexo da sociedade brasileira, e em nosso país temos diversas etnias. A outra reflexão se deve à interferência comercial num produto intelectual: Ainda hoje temos os patrocinadores que palpitam sobre os rumos da trama, algo comum no meio, mas que limita autores e direção.

Nada Será Como Antes foi um seriado que acertou muito ao trazer o pensamento de um passado que não está, mas parece distante no tempo. As dificuldades de se fazer televisão poderiam ter sido exploradas a fundo, não somente a novela ao vivo, mas também a dificuldade em se fazer cenários, atores que precisavam usar do seu próprio guarda-roupa para compor peças de figurino, ou mesmo o quanto era desconfortável para atores de rádio encararem desafios na televisão numa época onde não havia profissionais.  A dublagem brasileira é uma das melhores do mundo, e foi apresentada somente como um trabalho temporário de Verônica, onde a série perdeu a oportunidade mais uma vez de evidenciá-la. Mesmo com alguns deslizes, quem assistiu se lembrará de Nada Será Como Antes como produto televisivo de grande qualidade narrativa onde se destacaram as grandes atuações de Cássia Kiss e Débora Falabella, e os enredos atrativos, que fez da série ao lado de Justiça ser uma das melhores séries nacionais do ano.

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