Supermax acerta ao unir fantasia e clichês de reality show

Supermax mistura reality e ficção
Supermax mistura reality e ficção (Divulgação/TV Globo)

É realmente um novo e produtivo tempo no segmento das séries nacionais da Globo. Nicho dominado por comédias e, de vez em quando, uma ou outra experimentação, o cenário atual mostra que a direção da emissora pretende ir mais além. Amorteamo, no ano passado, já havia trazido algum frescor na área, e a empolgante estreia de Supermax é uma prova de que podemos esperar novas e boas experiências neste setor.

Salvo engano, é a primeira vez que uma série da Globo mergulha tão profundamente no campo do suspense, aventura e, principalmente, terror. E o mais interessante é que a premissa de Supermax parte de um universo já bastante conhecido do público brasileiro: o reality show. Ao centrar o enredo em um reality show no qual seus participantes ficam confinados num presídio de segurança máxima, Supermax, neste primeiro episódio, ofereceu uma brincadeira metalinguística que deixou a plateia à vontade e familiarizada. Tudo estava ali, como no bom e velho Big Brother: um grupo de participantes heterogêneo, um conjunto de regras de convivência, provas de resistência, dentre tantos elementos já tão enraizados no espectador deste tipo de atração.

Além, claro, da presença de Pedro Bial, que deixou este limiar entre ficção e realidade ainda mais saboroso. Assim como acontece no Big Brother, Bial surgiu em cena como o único contato entre os participantes do programa Supermax e o “mundo real”, ocupando seu lugar como oráculo, ditando as regras e fomentando discussões. E os participantes, claro, aparecem atentos a cada palavra do apresentador, reagindo de acordo com suas personalidades distintas. Do primeiro contato entre Pedro Bial e os “presidiários”, o público também pôde conhecê-los.


E, assim, o primeiro episódio de Supermax funcionou no mesmo esquema de um primeiro episódio de Big Brother. Além da apresentação das regras e do contato de Bial, os participantes foram apresentados por frases e uma ou outra revelação de suas vidas exteriores. Já se sabe que todos cometeram crimes antes de estar ali, e desvendá-los será um exercício a se praticar nos próximos capítulos. Um deles já teve a vida passada exposta: Diana (Fabiana Gugli) é uma ex-prostituta que sofria maus-tratos do marido e acabou assassinando-o. Também já houve uma espécie de “confraternização” entre os internos, quando surgiram as primeiras aproximações e as primeiras rusgas. E, por fim, uma prova de resistência valendo a liderança, que, em Supermax, é mais valiosa que uma liderança de Big Brother. Segundo Bial, a liderança em Supermax dá ao vitorioso uma espécie de poder supremo, e o líder poderá, até, definir quem come e quem não come.

A experiência metalinguística proposta pelo primeiro episódio de Supermax foi ainda mais fortalecida pelo fato de a grande maioria dos atores envolvidos não ser conhecida. Apenas Mariana Ximenes, a Bruna, e Cléo Pires, a Sabrina, são grandes estrelas. O fato de as duas também integrarem o elenco de Haja Coração não compromete, afinal, são dois produtos bastante distintos.

O gancho proposto ao final da estreia de Supermax foi bastante eficiente. Cecília (Vânia de Brito), ainda recupera o fôlego da prova de resistência quando avista, numa brecha em uma porta, o olhar de uma estranha criatura. É neste momento que o público começa a notar que Supermax não é apenas um reality show de confinamento, e sim uma história de suspense e terror, que terá uma mitologia própria. Afinal, o que é aquela criatura? Por que ela está ali? Os confinados correm algum perigo sobrenatural? Estas são algumas das perguntas deixadas no ar e que devem garantir o retorno do espectador na próxima semana.

Com roteiro esperto e envolvente, e fotografia e direção ousadas, Supermax prova que há vida inteligente longe das comédias globais. Trata-se de uma experiência acertada, que muito deve somar à teledramaturgia da emissora.

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10 AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .

Livro SupermaxVocê pode não saber, mas existe também um livro chamado Supermax, escrito em 2009 pela autora Sharon Shalev, publicado nos EUA e que também traz como enredo a história de uma prisão e os riscos do confinamento. CLIQUE AQUI e confira se essa obra tem a ver com a série da Globo.