Redenção de Afrânio (Antonio Fagundes) marca o final de Velho Chico
Redenção de Afrânio (Antonio Fagundes) marca o final de Velho Chico

Um dos últimos capítulos mais emocionantes de todos os tempos. Assim pode ser resumido o episódio final de Velho Chico, que encerrou em grande estilo uma trama épica, que só fez crescer em sua reta final. Amada por uns e odiada por outros, Velho Chico não passou indiferente. A trama de Benedito Ruy Barbosa, escrita por Bruno Luperi e dirigida por Luiz Fernando Carvalho foi uma feliz ousadia da Rede Globo, com um texto poético e extremamente bem escrito e uma direção que fugiu do óbvio a todo o momento.

Velho Chico demorou a engrenar, é verdade. Após uma primeira fase belíssima, focada na juventude de Afrânio de Sá Ribeiro (Rodrigo Santoro), a trama chegou aos dias atuais um tanto estranha. E a maior estranheza foi o próprio Afrânio, agora travestido de Coronel Saruê, e vivido por um Antonio Fagundes bonachão e caricato. Quase uma figura cômica, o atual Afrânio em nada lembrava o jovem idealista da primeira fase. Transformado em Coronel e exercendo seu poder sobre o pequeno município de Grotas de São Francisco, às margens do Rio São Francisco, Saruê tornou-se um ruído difícil de engolir.

Além disso, Velho Chico foi vendida como um “Romeu e Julieta rural”, centrando-se na história de amor entre Maria Tereza (Camila Pitanga), a filha do Coronel, e Santo (Domingos Montagner), cuja família Dos Anjos sempre foi inimiga dos Sá Ribeiro. No entanto, o prometido romance demorou a engrenar, e Velho Chico passou muitos capítulos vivendo de panfletagem ecológica. Os diálogos eram impregnados de discursos inflamados, com os mocinhos defendendo com unhas e dentes a implantação de um sistema de cultivo sustentável nas lavouras da região, enquanto o Coronel, conservador, refutava as novas ideias com unhas e dentes. Assunto pertinente, é verdade, mas que acabou soando cansativo a quem assistia.

Quando Velho Chico finalmente alcançou o equilíbrio entre o discurso ecológico e o folhetim, aí sim a novela aconteceu. Tereza e Santo se aproximaram e, aos poucos, foram desvendando segredos do passado, envolvendo a paternidade do filho Miguel (Gabriel Leone). Saruê, lentamente, deixou a comicidade de lado e se tornou, novamente, uma figura dramática, dando a chance a Antonio Fagundes, finalmente, mostrar o grande ator que é. Carlos Eduardo (Marcelo Serrado), marido de Tereza, tomou para si as vilanias da novela ao se mostrar disposto a roubar o lugar de Afrânio, provocando a queda do Coronel Saruê. E este, abandonado pela família, mergulhou num espiral de melancolia. E tudo isso envolto na direção arrojada de Luiz Fernando Carvalho e equipe, que oferecia momentos de pura emoção com uma fotografia de encher os olhos e takes inusitados, fazendo o espectador se envolver nesta profusão de sentimentos.

Iolanda e Afrânio reencontram o amor no final de Velho Chico
Iolanda e Afrânio reencontram o amor no final de Velho Chico

E foi justamente a redenção de Saruê que tomou conta dos capítulos finais de Velho Chico. A morte da mãe, a centenária Encarnação (Selma Egrei), e do filho Martim (Lee Tailor), além da partida da amada Yolanda (Christiane Torloni), desencadeou um conflito interno, quando Afrânio e Saruê duelaram. Finalmente livre das amarras do Coronel, Afrânio teve a chance de se redimir, se reaproximou da família e teve direito a um belo final feliz ao lado de Yolanda. Todas estas sequências foram de uma rara beleza na televisão brasileira, seja pelo texto inspirado, as atuações viscerais que revelaram grandes momentos de Fagundes e Christiane Torloni, e pela direção impecável.

E o tom de tristeza destas cenas finais ficou ainda mais intenso com a trágica morte do ator Domingos Montagner, afogado no rio que dá nome à novela. Numa triste mistura entre fantasia e realidade, a passagem do ator em seu melhor momento na televisão contagiou, inevitavelmente, a trama. Assistir a Velho Chico em seus momentos derradeiros proporcionou ao espectador sentimentos de angústia e compadecimento. Felizmente, Santo seguiu vivo até o final da trama, aparecendo na última semana por meio de uma câmera subjetiva, no qual o espectador via os acontecimentos sob a ótica do herói. Foram sequências de pura emoção, que serviram como uma bela homenagem da novela ao ator que acumulou poucos, mas excelentes trabalhos na televisão brasileira.

Foi assim, num misto de emoção e tristeza que Velho Chico chegou ao fim. Não sem antes seguir dando o seu recado, tanto no que se refere à agricultura sustentável, quanto denunciando as mazelas que destroem o rio protagonista da história. Mais ainda: foi fundo na questão do coronelismo, no desmando político e na corrupção, oferecendo algum otimismo em todas estas questões. No eco da nossa alma, Velho Chico disse adeus aos seus filhos na margem.

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10 AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .

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