Sol Nascente estreia com capítulo morno e Luís Melo ‘japonês’

Artistas orientais se manifestam sobre 'falso japonês' da novela Sol Nascente

Foi ao ar no início da noite desta segunda-feira (29) o primeiro capítulo de Sol Nascente, novo folhetim das seis da Rede Globo. A trama, assinada por Walther Negrão, Julio Fischer e Suzana Pires, estreia com a espinhosa missão de manter a boa fase da faixa deixada pelo sucesso de Eta Mundo Bom!. E a impressão causada pelo primeiro episódio é que a nova novela tem todos os ingredientes comuns do horário, oferecendo um típico romance água-com-açúcar das seis.

O eixo de Sol Nascente é a história de amor entre Mario (Bruno Gagliasso), neto de imigrantes italianos, e Alice (Giovanna Antonelli), criada em meio a um clã japonês. As duas famílias são amigas desde que seus respectivos patriarcas desembarcaram no Porto de Santos. Criados como irmãos, Mario e Alice possuem uma forte ligação. São parceiros e confidentes, e o laço que os une é grande ao ponto de ele se sentir desolado quando descobre que a amiga vai passar dois anos estudando no Japão. A relação entre eles neste primeiro momento ainda é de amizade, mas sabe-se que o sentimento irá evoluir. Não apenas pelas chamadas da trama, que deixaram isso claro, mas também pelo próprio diálogo estabelecido por ambos, que repetiram a palavra “amigo” pelo menos duas vezes a cada nova frase.

Ao que tudo indica, o casal deve convencer. Giovanna Antonelli e Bruno Gagliasso demonstraram uma boa sintonia em cena, que tem tudo para deslanchar quando esta amizade virar amor. Muito se falou sobre a diferença de idade entre ambos, que não poderiam ser amigos de infância. Sim, Bruno Gagliasso é mais jovem que Giovanna Antonelli, mas o ator já está na faixa dos trinta. E Giovanna, embora já tenha seus quarenta, ainda convence como balzaquiana. O texto da trama deixou claro que apenas quatro anos separam Alice de Mario. Tudo certo.


Se a história de amor ainda não se mostrou por inteiro, o passado da família italiana, os De Angeli, foi bastante explorado ao longo da estreia de Sol Nascente. Gaetano (Francisco Cuoco) e Geppina (Aracy Balabanian) vieram da Itália em direção ao Brasil fugindo da máfia italiana. Quando este passado parece querer voltar à tona, Geppina passa por mais bocados e Gaetano decide que a família deve deixar São Paulo, onde vivem. É a deixa para que os De Angeli se mudem de mala e cuia para Arraial do Sol Nascente, terra praiana onde vivem os Tanaka. No mais, o capítulo de estreia veio com a clara intenção de ressaltar as diferenças entre as duas famílias protagonistas: enquanto os italianos surgem gesticuladores e gritalhões, os japoneses surgem calmos, centrados e respeitadores das tradições orientais. Neste último, não faltou nem um otaku, Hideo (Paulo Chun), mostrado como um jovem tímido e nerd. Ou seja, Sol Nascente reforça os estereótipos sem nenhuma sutileza.

Mas o que causou ruído mesmo neste primeiro momento foi a polêmica escalação de Luís Melo para dar vida a Kazuo Tanaka. Ocidental, o ator vem fazendo um trabalho de corpo e voz para convencer como um japonês idoso, além de ter seus olhos “grandes” escondidos sob grosso par de óculos. Por mais que haja o esforço do ator, da direção, e até do texto (que deixou claro que Tanaka é mestiço e tem um avô estadunidense), não é possível, aos olhos do público, enxergá-lo como um japonês de fato. O ruído ficou ainda mais intenso nas cenas de flashback, quando Tanaka surge jovem e interpretado pelo ator oriental Daniel Uemura. Acreditar que Uemura se tornou Luis Melo com o passar dos anos é bem complicado.

Neste ponto, Sol Nascente perdeu uma excelente oportunidade de, enfim, colocar mais rostos orientais em cena. Afinal, atores descendentes de japoneses, chineses e coreanos raramente aparecem nas novelas brasileiras. E, quando aparecem, normalmente surgem estereotipados, vivendo donos de pastelaria, lavanderia ou turistas com máquina fotográfica em punho. Quando uma novela finalmente resolve tratar da imigração japonesa no Brasil e coloca uma família oriental na trama principal, estranhamente os atores japoneses são deixados de lado. Não totalmente: Miwa Yanagizawa (Mieko), Jacqueline Sato (Yumi) e Carol Nakamura (Hiromi) estão no elenco. Mas o clã ficaria ainda mais verossímil se o patriarca também fosse um legítimo oriental. Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o veterano ator Ken Kaneko revelou que chegou a ser convidado para o personagem, mas foi “desconvidado” logo depois. Uma pena. Kaneko, sem dúvidas, daria conta do recado.

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10 AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .