Justiça mostra que Manuela Dias é um nome a se prestar atenção

Manuela Dias
Manuela Dias (Divulgação/TV Globo)

Uma das estreias desta semana recheada de novidades na telinha brasileira, a minissérie Justiça chama a atenção por diversos motivos. De cara, ainda antes da estreia, a premissa já era convidativa, pois prometia um formato inédito dentre as minisséries já exibidas pela Globo: a cada dia da semana, a trama foca numa história, e as quatro histórias vão se cruzando em diversos momentos. Seria como se uma novela exibisse apenas um núcleo por capítulo a cada dia da semana.

Pelo que foi visto nesta primeira semana, o formato funciona. Propondo um vai-e-vem temporal e a oportunidade de o público acompanhar o mesmo acontecimento por diversas vezes, cada uma sob uma perspectiva diferente, o formato confere um sabor especial à narrativa. Por exemplo: em todos os episódios da semana, os personagens testemunharam um atropelamento. Mas apenas no episódio de sexta-feira (26), protagonizado por Maurício (Cauã Reymond), é que vimos o tal atropelamento sob a perspectiva da vítima. Tratava-se de Beatriz (Marjorie Estiano), esposa de Maurício, bailarina que perde os movimentos após o atropelamento e pede ao marido que tire a sua vida. Ele o faz, e acaba ficando sete anos preso por isso, saindo da cadeia disposto a se vingar de Antenor (Antonio Calloni), o homem que atropelou sua amada.

Maurício vai preso no mesmo dia que os demais protagonistas da série: Vicente (Jesuíta Barbosa), da história das segundas-feiras, é condenado por ter matado a namorada ao descobrir uma traição; Fátima (Adriana Esteves), das terças-feiras, é presa vítima de uma armação do vizinho, que planta drogas em sua casa depois que ela mata seu cachorro; e Rose (Jéssica Ellen), das quintas-feiras, que vai para a cadeia ao ser pega com maconha numa batida policial. Todos eles estão ligados por um emaranhado de situações, numa carpintaria arrojada e envolvente. E todas as tramas chamam a atenção pelo argumento bem realizado, diálogos bastante próximos da vida real e, ainda, um grupo de atores excelentes em momentos extremamente inspirados. Tudo isso tendo como cenário a cidade de Recife, numa bem-vinda atitude da Rede Globo de dar um respiro de produções que se passam no eixo Rio-São Paulo.


Tantas qualidades já colocam Justiça como um dos melhores lançamentos do ano na televisão brasileira. E apontam os holofotes para sua autora, a jovem Manuela Dias, roteirista que emplaca seu segundo trabalho solo na Globo, sendo que o primeiro também foi ao ar este ano, a minissérie Ligações Perigosas, exibida em janeiro. Se Manuela já havia mostrado competência na adaptação do romance de Choderlos de Laclos, a autora, agora, ressurge com um texto ainda mais maduro. Nada mal para a autora que, na televisão, até então, tinha no currículo colaborações em infantis, como Bambuluá, séries, como A Grande Família, e novelas, como Cordel Encantado e Joia Rara. Alçada a titular em duas das melhores produções de 2016, a autora firma-se como uma das principais revelações do time da Globo. Num momento propício para o lançamento de novos roteiristas, uma grata surpresa!

Manuela divide o mérito da excelência alcançada em Justiça com o diretor José Luiz Villamarim, que vem assinando os produtos mais inventivos da Globo nos últimos anos. Experiente profissional de televisão, o diretor integrou o time de diretores de diversas tramas de sucesso, como O Rei do Gado, Anjo Mau e Torre de Babel, chegando à direção geral de novelas a partir de Andando nas Nuvens, porém sempre submetido a um diretor de núcleo. Mas foi quando se tornou diretor titular de novelas que passou a capitanear algumas novas experiências, como as malfadadas Bang Bang e Tempos Modernos. Até que dividiu a direção geral de Avenida Brasil com Amora Mautner e, a partir daí, engatou uma série de trabalhos reconhecidos pelo arrojo: O Canto da Sereia, Amores Roubados, O Rebu e, agora, Justiça. Manuela Dias e José Luiz Villamarim, uma dobradinha que deu certo! De olho neles!

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10 AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .