Bons momentos marcaram Liberdade, Liberdade!

Joaquina (Andreia Horta) e Rubião (Mateus Solano) em cena do último capítulo de Liberdade. Liberdade!

Terminou na última quinta-feira, 04, a novela Liberdade, Liberdade!, a 6ª “novela das onze” da Globo. A trama de Mario Teixeira, com argumento de Márcia Prates e inspirada na obra “Joaquina, Filha de Tiradentes”, de Maria José de Queiroz, sai de cena depois de uma trajetória bem-sucedida. O público respondeu bem ao texto correto do autor, à direção primorosa de Vinícius Coimbra, e à acertada escalação do elenco, encabeçado pelos “novatos” Andréia Horta e Bruno Ferrari, ambos já com bons trabalhos no currículo, mas que protagonizaram na Globo pela primeira vez.

Liberdade, Liberdade! começou com primeiros capítulos didáticos, que pretendiam deixar claro ao público sobre as características da época retratada, nos tempos do Brasil colônia. Mostrou a morte de Tiradentes (Thiago Lacerda) e acompanhou os rumos de sua pequena filha Joaquina (Mel Maia), que foi adotada por Raposo (Dalton Vigh) e levada a Portugal. Anos depois, ela se torna Rosa (Andréia Horta) e retorna à Vila Rica com a família adotiva, carregando o mesmo espírito libertário do pai.

Depois disso, porém, Liberdade, Liberdade! deixou de lado o contexto histórico e mergulhou fundo no folhetim clássico. Rosa se junta ao grupo que luta pela liberdade do país, ao mesmo tempo em que se apaixona por Xavier (Bruno Ferrari), também um libertário. No entanto, o jovem que finge ser médico é prometido da rica e esnobe Branca (Nathalia Dill), que logo rivaliza com Rosa. Ao mesmo tempo, Rubião (Mateus Solano), intendente de Vila Rica, também se interessa por Rosa. Assim, formou-se um quadrado amoroso, que moveu boa parte dos capítulos. Branca engravidou de Xavier, mas acabou abortando e resolveu continuar fingindo a gravidez, sendo capaz de cometer os maiores absurdos para manter sua mentira. Ao mesmo tempo, Rubião corteja Rosa que, num determinado momento, resolve ceder aos encantos dele, sem saber que Rubião é um mau-caráter, responsável por uma série de atrocidades, entre elas a morte da família da mocinha. Esta foi a força motriz de Liberdade, Liberdade! durante boa parte de seus capítulos: uma típica ciranda amorosa, uma das bases do bom e velho folhetim.


Não que o folhetim proposto por Liberdade, Liberdade! tenha sido ruim, muito pelo contrário. A trama foi bem costurada e com muitas nuances. Mas o contexto histórico ficou tão relegado, que o fato de Rosa ser, na verdade, Joaquina, acabou não fazendo muita diferença em quase nenhum momento do enredo. O jogo só virou na reta final, quando surge Duque de Ega (Gabriel Braga Nunes), à princípio um enviado da Coroa Portuguesa para fiscalizar Vila Rica, mas que, na realidade, fazia parte de um grupo capitaneado pela princesa Carlota Joaquina (Susana Ribeiro), que queria, na verdade, tomar o Brasil colônia de Portugal e entregá-lo à Espanha. Neste momento, foi revelado que Alexandra (Juliana Carneiro da Cunha) era uma espiã deste grupo infiltrada entre os libertários e, quando a verdade vem à tona, começa uma grande batalha pela liberdade.

Assim, a reta final de Liberdade, Liberdade! foi eletrizante. Branca se mata tentando eliminar Rosa, enquanto a mocinha se casa com Rubião e, logo em seguida, descobre a verdade sobre o marido. De volta aos braços de Xavier, ela finalmente revela-se a filha de Tiradentes, e a batalha cresce. Entre muitos mortos e feridos, e diante de uma Vila Rica destruída, Joaquina e Xavier deixam a colônia, mas seguem com seus ideais de liberdade ainda mais fortalecidos. Sem dúvidas, os últimos capítulos foram de tirar o fôlego.

Além do bom enredo, direção e texto, Liberdade, Liberdade!, mesmo sendo um folhetim tradicional a maior parte de sua trajetória, ainda se permitiu ousar em alguns momentos. O maior avanço, sem dúvidas, foi a história que envolveu André (Caio Blat) e Tolentino (Ricardo Pereira). Eles se unem, a princípio numa sincera amizade, mas logo descobrem que o sentimento que os envolvem é maior do que isso. Entregam-se a uma paixão proibida. Confuso, o Capitão se afasta, enquanto André sofre ao ser acusado de sodomia, um crime na época. No fim, André é enforcado e Tolentino mergulha na culpa a na dor de ter perdido seu grande amor. Esta história teve o mérito de mostrar, pela primeira vez numa novela, um casal homossexual movido pela paixão e pelo desejo, incluindo aí o desejo carnal. Até então, casais gays em novelas eram praticamente assexuados. Mesmo os que se beijaram em cena, nas raras oportunidades, jamais demonstraram sentir desejo um pelo outro. Liberdade, Liberdade! deu um grande passo neste sentido, entrando na história como a primeira novela do Brasil a mostrar uma cena de sexo entre dois homens. Cena, aliás, oportuna e de bom gosto. Mais uma passo para que, um dia, quem sabe, tais cenas sejam vistas apenas como “cena de sexo”, e não “cena de sexo gay”. Uma barreira foi quebrada.

Liberdade, Liberdade! teve ainda outros grandes atores em excelentes atuações. Destaca-se aí Maitê Proença, excelente como a atormentada Dionísia, e Marco Ricca, num de seus melhores trabalhos na TV: seu Mão de Luva foi genial! Nathalia Dill foi perfeita como a vilã cômica Branca, finalmente mostrando algo diferente de suas açucaradas mocinhas, e Lília Cabral emprestou sua dignidade a Virgínia, uma grande personagem-chave do enredo. No fim, Liberdade, Liberdade! foi uma bela novela e sai de cena com missão cumprida.

Capa do livro Tele-Visão - A Televisão Brasileira em 10  AnosAndré Santana é autor do livro “Tele-Visão: A Televisão Brasileira em 10 Anos”, uma publicação da Editora E. B. Ações Culturais, impressa e distribuída pelo site Clube de Autores, e está à venda em versão impressa e e-book, apenas pela internet. É possível adquiri-lo clicando AQUI .