Existe Semelhança entre Babilônia e A Regra do Jogo?


Ontem diante da divulgação de um teaser da próxima novela das 21 horas, A Regra do Jogo, as redes sociais se transformaram em palco para um ataque de ansiedade coletiva. A Globo espertamente usou na chamada a frase “do mesmo autor de Avenida Brasil’’ para atrair a atenção do público (o mesmo foi utilizado em Geração Brasil escrita pelos mesmos autores do sucesso Cheias de Charme e não funcionou) e deu certo, gerou buzz.

Veja: Globo divulga a primeira chamada da novela A Regra do Jogo

Toda a divulgação veio atrelada a uma entrevista que o autor da trama, João Emanuel Carneiro concedeu ao jornal Estadão contando alguns detalhes sobre a trama, e ao ser questionado sobre a difícil missão de substituir Babilônia, foi (diferente de seus colegas de carpintaria) extremamente polido e diplomático, defendendo algo que venho questionando desde que a atual trama entrou no ar: a liberdade criativa dos autores.


Como muitos sabem novelas são obras abertas, que podem sofrer interferências e adequações para agradar ao público, gerar mais audiência e assim aumentar a oferta publicitária, que é de onde vem o dinheiro da TV. Ensaiei escrever sobre Babilônia desde sua estreia mas preferi aguardar.  E foi bom ter esse tempo, as impressões que eu tinha outrora não se casam mais com as impressões que formulei atualmente. Gilberto Braga (que tenho em mais alta estima, já que o considero ao lado de João Emanuel Carneiro, um dos melhores autores de novelas do Brasil) não perdeu a mão. Os elementos que ele está acostumado estiveram presentes em Babilônia em seu início. A história era forte, carregada, e a intenção de Gilberto Braga e Ricardo Linhares era clara, discutir o Brasil de hoje com todos os seus problemas culturais, sociais e econômicos, e o papel do cidadão nesse panorama que construímos dia após dia, moldando nosso caráter.

Juntamos numa mesma história, a moça batalhadora que ao ter seu pai assassinado e sua renda diminuída abandona a faculdade de medicina para cuidar da mãe, e se muda para a favela para conseguir se sustentar, o mal caráter que a engravida, o rapaz por quem ela se apaixona anos depois. Mas falta algo. Sim, faltam vilões. As vilãs, no caso, Beatriz e Inês em minha opinião sempre estiveram desconectadas demais da protagonista. Elas vivem num mundo à parte, ligados apenas por alguns encontros.  A impressão é que o enredo foi trabalhado em torno da vilã somente, fazendo com que a protagonista ficasse sem destaque, e pior sem um motivo decente para que o público torcesse por ela.

Mas pera aí… O que o Gilberto Braga pretendia não era basicamente o mesmo que João Emanuel Carneiro pretende com A Regra do Jogo? Discutir caráter, até que ponto as pessoas podem ir por ambição, ou mesmo a tal interseção entre morro e asfalto? Creio que sim, mas nesse meio tempo entrou o público, cada vez mais coberto por uma capa de falso moralismo que não aceitou a crítica aos evangélicos, não aceitou uma vilã ninfomaníaca, não aceitou prostituição, e não aceitou a mocinha batalhadora (e sim, um tanto mal construída) em busca de justiça pela morte do pai. Faltaram embates, faltaram vilanias sólidas contra a mocinha, faltaram tramas paralelas interessantes. Faltou coragem da Globo de arcar com a trama que havia sido planejada. Verdades Secretas é muito mais forte e caiu nas graças do público, e pelo que conhecemos de João Emanuel Carneiro (Avenida Brasil, A Favorita, A Cura), A Regra do Jogo tende a ser muito mais pesada.