O Frankenstein de Babilônia


Na onda da recente expressão “Nunca na história deste país…”, nunca na história deste país uma novela das nove da Rede Globo sofreu tantas modificações no ar. Com mudanças de rumo e alterações bruscas nos perfis dos personagens, os autores parecem ter perdido a mão no roteiro.

Não bastasse o recuo com o personagem de Sophie Charlotte, que deixou de ser garota de programa e virou moça batalhadora, é vergonhosa a guinada que Murilo (Bruno Gagliasso) teve de dar para se tornar um rapaz “decente”. Cheio de falhas de caráter, explorador e manipulador, Murilo tornou-se insosso e praticamente desapareceu da novela. Uma pena para um personagem complexo que tinha potencial.

Outro enredo implodido foi o romance gay entre Carlos Alberto (Marcos Pasquim) e Ivan (Marcello Melo Jr.). Em uma explicação artificial, a “aversão” por mulher do personagem de Pasquim virou remorso por ter acidentalmente causado a morte de sua esposa em um acidente automobilístico.


Mesmo depois da controvérsia do beijo gay entre Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, houve um certo isolamento das atrizes no enredo da novela. Uma pena, já que as melhores cenas até agora foram protagonizadas pelas duas damas. O telespectador é quem perde.

Além das mudanças de percurso na história, o tom de Adriana Esteves está acima do normal e fica difícil desassociá-la da personagem Carminha de Avenida Brasil. Acaba sendo um repeteco de trejeitos e gritos. Cabe a atriz renovar o tipo de personagem que anda fazendo já que também interpretou uma mulher sem escrúpulos na recente minissérie “Felizes para Sempre?”.

Sobre a mudança repentina de sentimento que Inês nutria por Beatriz nem é necessário abordar, a admiração e a inveja da ricaça da Souza Rangel virou vingança por ter feito o pai da desafeta ter cometido suicídio (?). Creio que este foi o erro mais crasso do roteiro da novela até o momento, já que é o tema principal do folhetim que está em jogo aqui.

Glória Pires construiu uma vilã que o público adora odiar, porém seu tom de vilania foi rebaixado a uma mulher confusa e com uma paixão inexplicável pelo nadador interpretado por Thiago Martins. Antes uma maneater calculista (devoradora de homens) que chegou até a transar com um rapaz desconhecido em um provador de loja feminina, acabou tornando-se uma mulher impulsiva emocionalmente que comete loucuras de amor e que deixa pistas de suas mancadas. Saudades de Maria de Fátima…

E por falar em Maria de Fátima, é difícil compreender o que se passa na cabeça de Gilberto Braga. O mesmo autor de uma novela tão redonda como Vale Tudo, deixa a peteca cair em uma trama que tinha tudo para dar certo mesmo contando com um elenco que tem a nata da Globo.

O núcleo cômico da novela também tornou-se capenga ao desperdiçar os talentos humorísticos de Rosi Campos e de Maria Clara Gueiros, que acabaram renegadas a coadjuvantes em cenas pontuais sem qualquer espaço para comicidade. Mesmo Marcos Veras e Igor Angelkorte parecem perdidos com seus personagens que vagam sem destino pelo enredo.

A função de fazer rir acabou caindo no colo de Arlete Salles, que com suas expressões “chiquê” roubam a cena e cada vez mais ganham espaço na telinha. É merecido o sucesso!

O romance fica por conta da relação pura e “proibida” de Lais (Luisa Arraes) e Rafael (Chay Suede), que dão conta do recado. Regina (Camila Pitanga) é uma personagem um tanto quanto histérica e obsessiva por vingar a morte de seu pai, componentes até interessantes para uma mocinha da novela das 21h. Mas acaba ficando chata muitas vezes. Sem contar que não há muita liga na sua relação com Vinícius (Thiago Fragoso).

Com problemas estruturais sérios, Babilônia se arrasta para seu terceiro mês como um Frankenstein cheio de remendos e perdida sem definição do que quer ser. Talvez os autores deram guarida demais para o telespectador ao deixar a opinião pública influenciar a trama original. Enquanto isso o ibope cai e a novela encurta. Quais serão as cenas dos próximos capítulos?

Por Marcello Azolino
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