Análise | Se a internet não existisse, isso não teria acontecido


Em texto publicado no Observatório da Imprensa, a jornalista Jaiane Valentim faz uma análise sobre o especial de jornalismo em comemoração aos cinquentenário da TV Globo.

A Rede Globo completa em 2015 50 anos. Para celebrar a data a emissora, entre outras atrações, relembrou momentos históricos do jornalismo em uma série especial durante o Jornal Nacional. No segundo episódio da série, que foi ao ar em 21/04, a Globo admitiu pela primeira vez, na televisão, que errou na cobertura das Diretas Já, em 1984. No episódio, a emissora noticiou que a população comemorava os 430 anos de São Paulo. Na verdade, a aglomeração na Sé se dava por conta de um comício das Diretas.

Como disse William Bonner, “essa reportagem provocou muita polêmica ao longo de muitos anos”. Todos sabiam que a Globo deixou de noticiar um importante momento político do país, mas a polêmica se arrastou pelos anos porque ela nunca quis dar o braço a torcer e admitir o erro.


Depois de muito se esquivar, a Globo resolveu se pronunciar de forma contundente sobre o assunto. Embora até tenha tocado no tema algumas vezes em anos anteriores, foi só em 31/08/2013 em um editorial do jornal O Globo que o erro foi reconhecido. Para noticiar o lançamento do ‘Memória Globo’ – site que reúne todos os momentos da história da emissora, o Jornal Nacional também falou das Diretas, mas de forma superficial abordando apenas o erro do jornal impresso e não da cobertura da TV. “A consciência não é de hoje, vem de discussões internas de anos”, diz a linha fina. No texto, a Globo reconhece que o coro, entoado tantas vezes, e que voltou às ruas nas manifestações de junho do mesmo ano, “a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”, é verdade.

Uma maioria que não era ouvida

O coro não podia ser mais abafado como foi outrora. Nos últimos anos o fenômeno da internet tornou-se algo extremamente acessível. Mais do que o acesso à informação, a internet possibilitou – e possibilita – que qualquer pessoa seja formador de opinião: seja em um post no Facebook, um tuíte, um vídeo, em seu próprio blog ou até mesmo em comentários de matérias de veículos de web.

A Globo nunca procurou se desculpar porque, até então, essa pressão era, da maioria, sim, mas de uma maioria que não era ouvida. Saber como o telespectador olha para a emissora e o que ele pensa sobre ela virou prioridade. Afinal, audiência é dinheiro. O monitoramento que é feito das redes sociais é prova disso. Sabe-se o que está dando certo e o que não agrada.

Após 31 anos, aquilo que todo mundo já sabia foi falado no mesmo Jornal Nacional. A democracia se fez presente.

Por Jaiane Valentim
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