Nos anos 90 a apresentadora do Mais Você, Ana Maria Braga, e, em 2014, o ator Hugh Jackman enfrentaram a doença. (Divulgação/Globo/Instagram)

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa de novos casos de câncer de pele para 2016 é de 5.760 pacientes, sendo 3 mil homens e 2.670 mulheres. Exposição solar pode ser a causa câncer mais frequente nas pessoas.

Nos anos 90 a apresentadora do Mais Você, Ana Maria Braga, e, em 2014, o ator Hugh Jackman enfrentaram a doença. O Observatório da Televisão conversou com um especialista no assunto, o Dr. Alexandre Audi, formado pela Faculdade de Medicina da USP-SP e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC), que releva detalhes do diagnostico, tratamento e o mais importante: a prevenção.  

Confira:


Qual é a incidência de casos de câncer de pele no Brasil? Qual é o tamanho do nosso problema?

O Instituto Nacional do Câncer, o Inca, registra 135 mil novos casos a cada ano e os cânceres da pele correspondem a 25% de todos os diagnósticos de câncer no Brasil.

O câncer de pele é provocado pelo crescimento anormal e descontrolado das células que compõem a pele. Estas células se dispõem formando camadas, e,de acordo, com suas características histológicas, são definidos os diferentes tipos de câncer. O tipo mais comum, o não melanoma, tem letalidade baixa e pode ser curado facilmente se detectado de forma precoce, mas o número de casos é alarmante. Por isso, é tão importante fazer visitas regulares a um médico especializado, caso perceba que há lesões que não cicatrizam ou com sinais suspeitos. O tipo mais agressivo, raro e letal é o melanoma.

A radiação ultravioleta é a principal responsável pelo desenvolvimento de tumores cutâneos, e a maioria dos casos está associada à exposição excessiva ao sol ou uso de câmeras de bronzeamento.

Quais hábitos contribuem para aumentar o risco de câncer? Existe também um risco maior por questões genéticas? Existe um grupo de risco que pode desenvolver a doença? É relativo à faixa etária, cor da pele, peso, região onde mora?

Sem dúvida, o hábito que mais contribui para o câncer de pele é a exposição solar sem proteção. Existem sim variáveis genéticas e doenças, como albinismo, que aumentam – em muito –  o risco, assim como ter a pele, cabelos e olhos claros. Uma pele que sempre fica vermelha e se bronzeia pouco no sol também corre um risco maior.

Como a incidência dos raios ultravioletas (UV) está cada vez mais agressiva no planeta todo, as pessoas de todos os fototipos devem se proteger quando expostas ao sol. A partir dos 50 anos, a atenção deve ser redobrada porque a pele já recebeu uma grande quantidade de raios UV.

Claro que todos precisam tomar cuidado, porque, obviamente, os grupos de maior risco são os do fototipo I e II, ou seja, pele clara, sardas, cabelos claros ou ruivos e olhos claros. Além desses, as pessoas que possuem antecedentes familiares com histórico da doença, queimaduras solares, incapacidade para bronzear e pintas também devem prestart muito atenção em si mesmas.

Como os homens são mais reticentes para se protegerem, o câncer de pele os atinge com mais frequência do que as mulheres.

Como é feito o diagnostico? Existe um exame de rotina que é feito com esse objetivo?

O câncer da pele pode se assemelhar a úlceras, pintas, eczemas ou outras lesões benignas. Assim, conhecer bem a pele e saber em quais regiões e como são as nossas pintas fazem toda a diferença na hora de detectar qualquer irregularidade. Somente um exame clínico feito por um médico especializado ou uma biópsia podem diagnosticar o câncer da pele.

É indispensável estar sempre atento aos seguintes sintomas:

  • lesão na pele de aparência elevada e brilhante, translúcida, avermelhada, castanha, rósea ou multicolorida, com crosta central e que sangra facilmente;
  • pinta preta ou castanha que muda sua cor, textura, fica irregular nas bordas e cresce de tamanho;
  • mancha ou ferida que não cicatriza e que continua a crescer; ainda apresenta coceira, crostas, erosões ou sangramento.

Para auxiliar na identificação dos sinais perigosos, basta seguir a regra do ABCD (assimetria, borda, cor e dimensão). Mas, em caso de sinais suspeitos, procure sempre um cirurgião plástico ou dermatologista. Nenhum exame leigo substitui a consulta e avaliação médica.

Qual é a taxa de mortalidade e o tratamento adequado para quem é diagnosticado com esse tipo de câncer? Existe um momento melhor para descobrir o problema?

No caso do melanoma, no Brasil, estima-se 6 mil casos novos por ano, com uma incidência estimada de 3,03 casos/100 mil homens e 2,85 casos/100 mil mulheres (taxas brutas), representando cerca de 1% de todos os casos de câncer (dados do Inca de 2014). Porém, as proporções variam segundo as regiões geográficas. Para o ano de 2010 foram registrados  mais de 1.500 óbitos, a maior parte no Sudeste, seguida das regiões Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte, com taxa de mortalidade ajustada de 0,73 óbitos/100 mil habitantes(de acordo com o Datasus, em pesquisa feita em 2014).

Todos os casos de câncer de pele devem ser diagnosticados e tratados precocemente, inclusive os de baixa letalidade, que podem provocar lesões mutilantes ou desfigurantes em áreas expostas do corpo, além de causar sofrimento aos pacientes se não for tratado.

Felizmente, há diversas opções terapêuticas para o tratamento do câncer da pele não melanoma, que variam de acordo com o tipo e e extensão da doença. Conheça os mais comuns:

Cirurgia excisional – Remoção do tumor com um bisturi e também de uma margem adicional de pele sadia, como margem de segurança. Os tecidos removidos são examinados ao microscópio, para verificar se todas as as células cancerosas foram retiradas. A técnica possui altos índices de cura e pode ser empregada no caso de tumores recorrentes.

Curetagem e eletrodissecção – Usadas em tumores menores, esses métodos se refere à raspagem da lesão com uma cureta, enquanto um bisturi elétrico lesa as células cancerígenas. Para não deixar vestígios de células tumorais, repete-se o procedimento algumas vezes. Não é recomendável para tumores invasivos.

Criocirurgia – Este procedimento promove a destruição do tumor por congelamento com nitrogênio líquido, a -50 graus. A técnica tem taxa de cura menor do que a cirurgia excisional, mas pode ser uma boa opção em casos de tumores pequenos ou recorrentes. Nela, não há cortes ou sangramentos. Também não é recomendável para tumores mais invasivos.

Cirurgia a laser – A cirurgia remove as células tumorais, com a utilização do  laser de dióxido de carbono ou erbium YAG laser. Por não causar sangramentos, é uma opção eficiente para aqueles que têm desordens sanguíneas.

Cirurgia micrográfica de Mohs – O cirurgião retira o tumor e também um fragmento de pele ao redor com uma cureta. Em seguida, esse material é analisado ao microscópio. Tal procedimento é repetido sucessivamente, até não restarem vestígios de células tumorais.  A técnica preserva boa parte dos tecidos sadios, e é indicada para casos de tumores mal delimitados ou em áreas críticas.

Terapia Fotodinâmica (PDT) – O médico aplica um agente fotossensibilizante, como o ácido 5-aminolevulínico (5-ALA) nas células anormais. No dia seguinte,as áreas tratadas são expostas a uma luz intensa que ativa o 5-ALA e destrói as células tumorais. Os danos aos tecidos sadios são mínimos.

Além das cirurgias, a radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e medicações orais e tópicas são opções de tratamento para os carcinomas. Somente um médico especializado em câncer da pele pode avaliar e prescrever o tipo mais adequado de terapia. No caso do melanoma, o tratamento varia conforme a extensão, agressividade e localização do tumor, aliado à idade e estado geral de saúde do paciente.

Na maioria dos casos, o melanoma metastático não tem cura, por isso é importante detectar e tratar a doença o quanto antes.

Quais dicas você daria para um paciente e para as pessoas que convivem com pessoas diagnosticadas com esse tipo de câncer?

As dicas básicas não mudam, especialmente para as crianças e quem trabalha ao ar livre:

  • Evitar exposição prolongada, principalmente entre 10h e 16h;
  • Usar e reaplicar sempre o protetor solar compatível com o tom de pele, mesmo aqueles à prova d’água;
  • Procurar lugares à sombra, porque mesmo debaixo do guarda-sol o reflexo da radiação chega a 35%;
  • Usar óculos escuros, chapéus, camisa de manga longa e calça comprida.

Os tecidos fechados possuem um fator de proteção solar entre 20 a 30, mas não dispensam o uso de protetor. O mormaço queima mesmo, pois as nuvens filtram muito mais o calor do que a radiação ultravioleta. Então, o uso de protetor solar não pode ser dispensado nem nos dias nublados.

E para reforçar, use protetor solar, camisetas com proteção solar, chapéus ou bonés, quando for tomar sol. Também é aconselhável observer o corpo atentamente. Caso perceba alguma modificação ou sinal mais antigo ou recente, notar alterações de forma, tamanho ou cor em pintas pré-existentes ou que apareceram recentemente, é o momento de consultar um cirurgião plástico ou dermatologista.

Ana Maria Braga

Em entrevista à Folha de São Paulo, a apresentadora falou sobre o tratamento que enfrentou em 1991: “Da primeira vez, era um câncer de pele, tratado com uma cirurgia profunda no braço. Ficou a marca, mas a gente sempre sai com cicatriz, onde for, depois de uma doença séria”, a apresentadora do Mais Você enfrentou ainda em 2001 e 2015 outros tumores.

Hugh Jackman

“Por favor usem o protetor solar”. Foi através das redes sociais que o ator americano falou sobre mais um tratamento contra o câncer de pele. Em 2013 o astro enfrentou outro tratamento.

Hugh fez mais um alerta em suas redes: “Deb me disse para olhar essa marca no nariz. Cara, ela estava certa! Eu tinha uma célula carcinoma basocelular. Por favor não sejam tolos como eu. Façam exames. E USEM protetor solar”. 

Astro de enfrentou dois tumores em 2013 e 2014 (Reprodução/Instagram)

Alexandre Audi é especialista em Cirurgia Plástica pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, cirurgião plástico do Hospital da Aeronáutica de São Paulo e do Núcleo de Feridas Complexas do Hospital Sírio-Libanês. Realizou internato médico com equivalência na conceituada Harvard Medical School em Boston, e em Microcirurgia Reconstrutiva e Reconstrução Mamária, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, após o término da residência médica de cirurgia geral e cirurgia plástica neste mesmo hospital.

Colunista Leandro Lel Lima

*As informações e opiniões expressas nessa coluna são de total responsabilidade de seu autor.