Silvio Santos, Chacrinha e Flávio Cavalcanti

Sem dúvida a história da TV até o momento marca a existência de três grandes nomes: Silvio Santos, Chacrinha e Flávio Cavalcanti.

Embora Silvio Santos tenha sido o mais bem sucedido, com grande capacidade comercial, deixando um império pra sua família, não foi o mais completo no palco.

Chacrinha teve uma vida de tv de muito sucesso e foi um personagem raro de grande carisma. Tive oportunidade de conhecer Chacrinha e conviver um pouco de tempo com ele em 1976 quando ele fazia seu programa na TV Record e eu era gerente de marketing de um grande anunciante dele. E todas as sextas a gente se encontrava no fim de tarde no hall do hotel Normandie em que ele se hospedava. Conversamos muito sobre tv e aprendi muito com a maneira de pensar dele.


Naquele tempo não tinha ibope minuto a minuto que dá o parâmetro que o apresentador do programa precisa ter pra saber se aumenta ou reduz determinado tema. Mas Chacrinha tinha isto dentro dele, assim como Flávio Cavalcanti e Silvio Santos, com uma capacidade incrível de entendimento, os três, sobre o que a dona de casa gostaria de ter no programa.

Pena, nem sei porque, Silvio Santos não reedita seus grandes shows que eram Boa Noite Cinderela, Porta da Esperança e Show do Milhão. Não tenho dúvidas de que se fizesse isto ele seria líder de ibope nos domingos contra quem quer que fosse.

Mas show por show, o mais completo de todos foi sem dúvida Flávio Cavalcanti. Ele tinha grande show e grande jornalismo. Foi único ao somar show ao jornalismo de maneira inigualável, aliás única. Embora outra pessoa assinasse a direção do show, era Flávio quem realmente comandava.

Alguém neste momento vai dizer que Hebe também somava com maestria o jornalismo dentro do show. Sem dúvida a Hebe da TV Record foi uma rainha no palco e o maior nome feminino da história da tv. Mas fora dele quem comandava era a Equipe A de Tuta, Manoel Carlos, Nilton Travesso e Raul Duarte. E muita coisa de Hebe no palco era criada naquele momento por Manoel Carlos que passava tudo pelo ponto eletrônico.

Flávio era rei no palco e fora dele. Tivesse tido Flávio Cavalcanti a malícia comercial que Silvio Santos teve e Flávio teria conseguido sua própria emissora de tv na época do Regime Militar.

Silvio Santos nisto foi bem mais hábil e não foi traído por pessoas ao seu lado. Flávio teve grandes decepções que o fragilizaram. A maior delas foi o presidente da TV Tupi, que era senador aliado ao governo militar, ter feito acordo com a TV Globo para prejudicar o Programa Flávio Cavalcanti na TV Tupi pra poder dar espaço pra lançamento do Fantástico na TV Globo.

Uma traição inominável justo contra Flávio Cavalcanti que perdeu uma casa que amava por ter dado como garantia bancária de uma dívida da própria TV Tupi.

Tivesse tido Flávio o vigor que teve Silvio Santos e o Brasil teria uma emissora do padrão de uma CNN com certeza na área de jornalismo agregada aos show que ele sempre gostava de mostrar.

O famoso juri de Flávio Cavalcanti, de uma classe e competência sem nada parecido, dava o realce necessário e agregava credibilidade ao programa. As polêmicas reportagens colocadas ali no palco ao vivo foram coisas que marcaram a história da tv.

Seu prestígio era tão grande que mesmo quando a TV Tupi lhe tirou verba de produção, por incrível que pareça pra beneficiar a TV Globo e o Fantástico, mesmo assim Flávio conseguia, através de seu amigo Marcos Lázaro, o maior empresário artístico da história do Brasil, cantores de nome sem custo numa época que as emissoras pagavam excelentes cachês aos grandes cantores.

Flávio Cavalcanti era único, como único era Chacrinha e único é Silvio Santos.

Não podemos deixar de citar que foi Silvio Santos que abriu as portas de sua emissora para que Flávio Cavalcanti pudesse terminar sua vida no ar, sonho de todos os artistas.

Temos a lembrança de Flávio e de Chacrinha. E temos a presença de Silvio Santos que ainda vai nos brindar por bom tempo nos mostrando a arte de fazer tv aberta.

Gênios não tem herdeiros mas deixam a todos nós as lições e as marcas de paixão pela vida.

Por James Akel
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*As opiniões expressas nesta coluna são de total responsabilidade de seu idealizador.